Publicado no Jornal O Amigo do Povo, nº16, Março/Abril/Maio de 2026.
Antônio Galego

“Eu sou brasileiro. Eu sou o que a prática revolucionária realizada no contexto brasileiro fez de mim. Nós seguimos nosso próprio caminho e se chegamos à pontos de vista iguais aos de Mao, Ho Chi Minh, Fidel Castro, Guevara, etc., não foi pelo nosso desejo.” (Carlos Marighella)
Nos últimos anos presenciamos diversos rachas nas organizações de esquerda, reformistas e revolucionárias. Esse é mais um sintoma da crise atual da classe trabalhadora. É um fato que as organizações combativas e anti-governistas apresentam limitações para responder (na teoria e na prática) à situação atual, levando à rachas e conflitos internos. O projeto petista também tem dificuldade em responder às suas próprias contradições. Por isso a crise é generalizada e a busca por respostas (aonde ir e o que fazer) é uma constante.
Uma primeira característica do que chamamos doutrinarismo é a ideia de buscar uma fórmula teórico-ideológica que seja pura e que esteja perdida em algum momento, lugar ou pessoa do passado e que nós devemos descobrir. É como se os problemas fundamentais da revolução brasileira já tenham sido resolvidos em outro tempo-espaço, basta a gente ter acesso a essa verdade, a esse modelo.
No geral, trotskistas, anarquistas e maoistas são os mais doutrinários. A subjetividade defensiva fruto de uma experiência histórica traumática no século XX, de posições traídas, reforça a vigilância e apego ao “caminho correto” desvirtuado. A cada nova ruptura, a promessa de “erradicar o revisionismo” e reconstruir o “verdadeiro” partido da revolução. E assim vão acumulando tantas correntes e sub-correntes, com base em interpretações distintas das “escrituras”, mas que, ao fim e ao cabo, são usadas para justificar as posições políticas concretas mais díspares (frente ao governo, à luta sindical, etc.).
Assim, reencontrar o “elo perdido” da teoria marxista ou anarquista; o erro de análise de tal ou qual processo ou líder histórico do outro lado do mundo, há 200 anos; transformar essas posições de ódio ou amor às revoluções e revolucionários passados mais do que fontes de inspirações e aprendizados em rusgas estéreis descoladas da realidade concreta atual, se torna uma verdadeira obsessão (quando não um passatempo) em uma esquerda que perdeu o mais importante: vínculos reais com a massa trabalhadora, seus dilemas concretos, sofrimentos e esperanças de futuro.
O debate estratégico e programático da revolução brasileira é contaminado assim com o doutrinarismo, desviando a atenção para modelos pré-fabricados constituídos em experiências passadas e em outros países, impedindo o desenvolvimento de um autêntico movimento revolucionário brasileiro, que esteja aberto para a formulação, de baixo para cima, de uma nova estratégia e programa, de uma nova práxis política, socialista e revolucionária, mas com os pés bem firmes no chão, no presente, e um olhar para o futuro do nosso povo.
Assim, nós vemos que o problema principal não é a quantidade de agrupamentos políticos em si, mas o afastamento das massas e o método e a forma de pensar sectária de cada um deles. Todos “tem o rei na barriga”. A reunificação organizacional dos revolucionários brasileiros poderá ser melhor alcançada com o enfrentamento desse problema político de fundo.
Uma outra característica importante do doutrinarismo é a elevação da luta de ideias, de quem tem “razão”, a um plano superdimensionado da luta de classes (e mais ainda com as redes sociais). Por exemplo, está na preocupação doutrinária de trotskistas e anarquistas a “questão democrática” da luta classista e da revolução. É certo que existe um momento de formulações e disputas programáticas, teóricas, etc. Mas a revolução não é um torneio literário, como disse Bakunin e, depois, Mao. A radicalização democrática (graus e níveis de autogestão econômica e de poder popular) de um processo revolucionário real, dependerão fundamentalmente de: 1) capacidade técnica e política de amplos setores das massas trabalhadoras (indústria, agronegócio, transportes, comércio, etc.), capazes de gerir e reorganizar sistemas de produção e distribuição sobre novas bases; 2) inserção de uma vanguarda em frações estratégicas do proletariado que garanta poder real em uma situação insurrecional e pós-revolucionária.
Na hora suprema da revolução importará pouco se o “conceito” usado para determinar a forma política será Governo, Estado ou Confederação; ou os melindres filosóficos sobre o Ser e o Nada; ou as modas acadêmicas e as novas palavras inventadas nas universidades. Os fatos são e serão todo-poderosos. A direção de um Programa e Estratégia da Revolução Brasileira, a Força Militar e a Força de Massas serão os elementos decisivos para determinar o caráter e a profundidade das transformações revolucionárias em âmbito econômico, político e social.
Isso não significa, obviamente, rejeitar a teoria e a ideologia, mas rejeitar a sua deturpação pelo doutrinarismo. Este se sustenta em uma mistificação, de “uma” teoria revolucionária e “um” partido revolucionário. Mas a história desmente isso. Todos os processos concretos levaram à formação de frentes e alianças, assim como dialeticamente, disputas, inovações e colaborações de teorias e práticas políticas distintas para a vitória do processo. Nenhum processo revolucionário vitorioso foi copiado com sucesso em qualquer parte do mundo. A busca de “modelos de sucesso” não resolve o nosso problema.
Por fim, se rejeitamos o doutrinarismo, como evitar o ecletismo e o pragmatismo dissolvedores e estéreis? Nós devemos ter posições intransigentes sobre aquilo que merece firmeza. De nada adianta gastar rios de tinta sobre os sovietes e a burocratização stalinista e terminar no colo de Haddad e Lula. É necessário sim forjar um método, um programa e uma estratégia, ter linha política, de massas e militar, ter análise da realidade. A experiência histórica acumulada de lutas do povo brasileiro e do proletariado internacional, assim como das correntes revolucionárias e socialistas, devem ser guias e ensinamentos, mas não dogmas e manuais. Cada revolução é única em sua forma e conteúdo.
Superemos o cômodo papel de coadjuvante dos doutrinários. Assumamos com seriedade todos os riscos e desafios da luta pela libertação popular no Brasil. Lutar e vencer. ■






