
Revolucionar a nós mesmos para revolucionar o Brasil
Plenária Nacional do Grupo Libertação Popular
Brasil, agosto de 2025.
1 – Introdução
Em maio de 2025 o Grupo Libertação Popular (GLP) completou seu primeiro ano de existência. Somos um jovem agrupamento socialista revolucionária, e, apesar de sermos fruto de outras experiências passadas, tivemos que nos reorganizar quase do zero, o que gerou desafios coletivos no nível de organização interna, de estruturação de frentes de atuação, de unidade de análise, estratégica e programática. Temos enfrentado de frente e com humildade esses desafios. Faltam quadros, falta estrutura, urge o aprofundamento em questões importantes, teóricas e práticas. Demos passos importantes, mas iniciais. Porém, seria um caminho mais fácil e seguro, tanto quanto tolo e inútil, começar a caminhada com todas as respostas.
A Plenária Nacional do GLP, realizada nos dias 23 e 24 de agosto de 2025, surgiu nesse contexto e nessa necessidade. Ao longo de pré-plenárias locais, da leitura e debate das contribuições, releitura de documentos e acúmulos passados, e durante os dois dias da Plenária Geral nós avaliamos a realidade da luta de classes nacional e internacional, os desafios atuais das massas populares e dos revolucionários brasileiros, o quê e até onde podemos avançar como organização, o que ainda precisamos fazer ou melhorar, que erros (de análise e de prática) corrigir. A Plenária teve, portanto, como objetivos: instruir, atualizar e aprofundar diferentes diretrizes da nossa Organização e Luta.
A superação da atual etapa embrionária de organização, em quantidade e qualidade, só será alcançada com um intenso trabalho político articulado com a ação militante, com um espírito de superação do dogmatismo e oportunismo, aberto às necessidades concretas e particulares da revolução brasileira. Da onde estamos para onde queremos chegar existirão muitas etapas históricas a serem cumpridas. Exigirá firmeza e coerência em nosso projeto político (socialista, revolucionário, classista, anti-imperialista, autogestionário) mas grande habilidade para efetuar as transformações internas e orgânicas exigidas em cada etapa de construção, sem se apegar às fórmulas prontas e acabadas. Por isso batizamos nossa Plenária com um lema parafraseado do MIR-Chileno: revolucionar a nós mesmos para revolucionar o Brasil.
A Plenária ocorre em um momento histórico no Brasil e no mundo marcado pelo acirramento das disputas imperialistas e burguesas, de aumento da superexploração das massas trabalhadoras, retiradas de direitos e destruição ambiental, de novas guerras pelo mundo e do genocídio do povo palestino. O cheiro de enxofre e pólvora do imperialismo ianque se torna mais forte na América do Sul ameaçando os nossos irmãos venezuelanos e também a todos nós com o redesenho geopolítico e econômico da região. Frutos da crise do imperialismo, o atual contexto seria um terreno fértil para uma estratégia revolucionária se não fosse a crise de organização, ideológica e de direção do proletariado.
O descompasso entre as limitações subjetivas da classe e as grandes exigências da nossa geração tem levado comumente à confusão e à capitulação, expressos nos apoios tristes e desgostosos nos “menos piores”, na gestão “progressista” da barbárie, ou pior, alimentado a política reacionária e entreguista da extrema direita. Diante disso, não devemos pintar a realidade com as cores do nosso gosto. Como alertaram os camaradas da editora Grito do Povo na Saudação à Plenária: “a tarefa dos revolucionários e revolucionárias é encarar o mundo como ele é — cru e duro — sem, contudo, cair no pessimismo ou no derrotismo”.
A Plenária reafirmou que todos nós, militantes do Grupo Libertação Popular, assumimos uma grande responsabilidade aos decidirmos construir uma organização como a nossa. Uma responsabilidade frente aos nossos camaradas de luta, mas, principalmente, frente as tarefas de libertação da nossa classe. Nosso nome expressa o nosso objetivo supremo: libertação popular. Alcançar a libertação econômica, política e social em um país como o Brasil não será fácil. Enfrentamos grandes inimigos capitalistas, militaristas e imperialistas. Mas nós decidimos e juramos contribuir honestamente e decisivamente com essa causa. Certamente não faremos sozinhos e ainda temos muito o que caminhar e aprender, mas não desistiremos nem capitularemos, nos organizamos para superar nossas limitações, dar nossa contribuição no curto, médio e longo prazo. Com uma linha correta (como um grupo de ação, de combate, profundamente classista), seguiremos avançando, revolucionando-nos, com paciência e firmeza.
Como revolucionários, iremos ao povo, aprender, apoiar e contribuir para a unidade e direcionamento dos esforços da luta proletária, especialmente nos setores estratégicos. Reafirmamos que o nosso povo não é uma folha em branco (como pensam os doutrinários elitistas de esquerda e de direita), ao contrário disso, é a fonte sagrada e rica da revolução, é a nossa maior fortaleza. Nosso povo é grande, nós somos pequenos. A revolução brasileira diz respeito ao povo, não às nossas opiniões individuais ou sectárias. A força, a sabedoria e as tradições ancestrais, insurgentes e libertárias do heroico povo brasileiro são a fonte e o segredo da vitória da revolução, únicas bases capazes de mobilizar e sustentar os imensos sacrifícios para a destruição da velha ordem e construção de um novo Brasil: do poder popular, da liberdade e do socialismo.
Ir ao Povo!
Organizar a luta combativa por uma vida digna e pela libertação popular!
2 – Resoluções sobre imperialismo e conjuntura internacional
A etapa imperialista do capitalismo tem origem no início do século XX. O imperialismo é essencialmente um sistema de exportação de capitais dos países do centro para a periferia, baseado na exploração da força de trabalho e pilhagem dos recursos naturais através de grandes empresas monopolistas e formação de Estados imperiais. Tais mudanças na estrutura do capitalismo foram produto tanto do ascenso da luta de classes na Europa como na crise do capital. No início do século XX o mundo viu as taxas de produtividades e de lucro declinarem. Portanto, na origem da exportação de capitais do centro para a periferia, estava a possibilidade e a necessidade de aumentar a taxa de lucro através da superexploração do trabalho, imposta no exterior. O imperialismo era ao mesmo tempo o capitalismo monopolista (dos grandes bancos e empresas) que investia na superexploração da força de trabalho da periferia, tanto assalariado como de formas “não capitalistas”.
Quando falamos de imperialismo (ou de fascismo, ou de neoliberalismo), estamos falando de frutos legítimos do desenvolvimento capitalista, não de “anomalias” ou “resquícios do passado”. Toda a autêntica política popular revolucionária contra o imperialismo, o fascismo e o neoliberalismo, aonde quer que eles se manifestem, não pode ser senão uma parte da luta contra a exploração capitalista e pela libertação das massas trabalhadoras, pelos métodos e com um programa independente do proletariado. Por trás da ideologia hipócrita da “soberania nacional” e da “democracia” (em abstrato, acima da luta de classes) é que setores da burguesia, conservadores e progressistas, fazem suas guerras e disputas por riquezas e poder.
O duplo mercado de trabalho é uma das principais instituições do imperialismo, segmentando a classe trabalhadora em duas grandes esferas, a esfera inferior do mercado submetida aos processos de superexploração, enquanto se concedem melhores salários diretos e indiretos na esfera “superior”. A atual tendência ultramonopolista da acumulação de capital tende ao achatamento, em escala nacional e internacional, dessa esfera superior e a massificação do proletariado marginal.
O processo de desenvolvimento do imperialismo transformou as relações de dependência clássica e diversificou profundamente as relações na divisão internacional do trabalho. Essa diversificação estava amparada nas maiores taxas de lucro praticadas na periferia do capitalismo. Nesse processo observa-se a constituição dos países centrais da economia capitalista em Impérios (especialmente no eixo Europa-EUA e, posteriormente, no eixo China-Rússia), isto é, a burguesia exerce seu poder a partir da centralização política estatal e do monopólio econômico, que são exigências da expansão do domínio em áreas periféricas, convertidas em nações satélites, áreas de influência, sem a qual é impossível produzir e reproduzir a acumulação capitalista em escala mundial.
Houve uma diferenciação interna na periferia em meados do século XX, em que países latino-americanos como o Brasil, México e Argentina passaram por processos de desenvolvimento capitalista dependente (industrialização, urbanização), financiadas pelo capital estrangeiro, e se constituíram como “semiperiferias” ou “potências regionais”. O mundo não se dividia mais apenas entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos, mas também entre aqueles que tiveram um “desenvolvimento do subdesenvolvimento”. Mas o desenvolvimento dependente só foi viável graças à superexploração do trabalho periférico. A exportação dos capitais acumulados exigia maiores taxas de lucro, portanto, exigiu na periferia uma maior taxa de mais valia absoluta, com a prática de menores salários, jornadas exaustivas e a quase inexistência de salários indiretos. A maior exploração do trabalho na periferia era pré-condição da exportação de capitais, e logo, do desenvolvimento dependente, especialmente na América Latina, onde durante quase todo o século XX os investimentos capitalistas tiveram um destino prioritário, formando uma “semiperiferia” do capitalismo (Brasil, Argentina e México).
Dentro dos países capitalistas, essa mesma lógica de segmentação do mercado se produziu, correspondendo ora a clivagens étnicas (por exemplo, os migrantes na Europa e EUA), ora a clivagens sociais diversas (migrantes das zonas rurais no Brasil, população negra marginalizada, mulheres trabalhadoras, etc.) que tinham como destino certo a ocupação em profissões com baixa remuneração e sem garantias. O duplo mercado garantia assim os mecanismos concretos de acentuação da exploração do trabalho, o aumento das taxas de mais valia absoluta e consequentemente da taxa de desigualdade social entre centro e periferia, e dentro do centro e periferia, entre proletários integrados e “não-integrados”.
O desenvolvimento capitalista dependente não caminhou para resolver as grandes questões sociais e nacionais, não foi uma etapa prévia da “ruptura” com a Dependência. Para piorar, com a transferência dos investimentos para a Ásia na transição para o século XXI o “sonho subimperialista” latino-americano dos políticos burgueses e social-democratas deu lugar ao pesadelo da “reversão” político-econômica do Brasil e América Latina como exportadores de produtos agrominerais e fornecedores de mão de obra e terra barata. Ou seja, quando foi interessante, o capital industrializou, mas depois ele desfez e migrou. O peso atribuído ao papel subjetivo dos líderes burgueses desenvolvimentistas na nossa história (Vargas, Perón, etc.), assim como as ilusões atuais numa nova política estatal nacional-desenvolvimentista, são, assim, um equívoco. O desenvolvimento, a prosperidade e a independência que queremos para nosso povo e nossa pátria está inexoravelmente subordinado à ruptura com o sistema capitalista, ou seja, à revolução socialista.
2.1 – Reestruturação produtiva e crise do sistema imperialista
A década de 1970 foi marcada por profundas transformações no capitalismo em escala mundial: o modelo fordista-keynesiano entra em crise (estagnação econômica, inflação, perda de competitividade da padronização fordista e diminuição da taxa de lucro); os países sofrem com os dois choques do petróleo e a revolução técnico-científica impõe um novo modelo de acumulação de capitais. Como saída da crise, a burguesia inicia a implementação de políticas neoliberais e na economia substitui o fordismo pelo toyotismo, também designado de “pós-fordismo” e “acumulação flexível”. O neoliberalismo e acumulação flexível ganharam hegemonia global especialmente após o desmantelamento do bloco de países do “socialismo real” e, consequentemente, o fim da Guerra Fria. Hoje, o avanço da Inteligência Artificial (IA), da robótica e das novas tecnologias em geral aplicados ao processo de acumulação mundial capitalista tem aprofundado esse processo, ao mesmo tempo que, liderados incontestavelmente pela China, tem tido grande influência nas disputas atuais no sistema interestatal.
Um dos principais efeitos das políticas neoliberais e da acumulação flexível é o aprofundamento da competição intercapitalista gerando uma maior concentração e centralização de capitais. As corporações transnacionais, que atuam como oligopólios mundiais, dominam os mercados globais e estão por trás das atuais guerras em curso. As “Big Techs”, oligopólios capitalistas do ramo de tecnologia e comunicação, que reúne Microsoft, Google, Twitter (hoje X), Amazon, Ali Baba, Meta (dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp), Apple, etc. tem um valor de mercado próximo a US$ 10 trilhões, muito maior que o PIB de toda América Latina. No Brasil, o setor supermercadista, que correspondente a 9,12% do PIB em 2024 (R$ 1,067 trilhão), apresenta um processo de monopolização crescente, diretamente relacionado aos oligopólios alimentícios e à agroindústria. Segundo o Ranking Abras (2025), as 5 maiores empresas supermercadistas no Brasil (Carrefour, Assaí Atacadista, Mateus Supermercados, Supermercados BH, Grupo Pão de Açúcar) faturaram em 2024 cerca de 30% do total de lucros no setor. A multinacional francesa Carrefour, que comprou o Grupo BIG em 2022 em plena pandemia, possuiu faturamento de R$ 120 bilhões em 2024, é o maior empregador privado no Brasil com 150.000 funcionários. O setor supermercadista é um grande responsável pela superexploração dos trabalhadores, com baixos salários, jornadas extensivas de trabalho e perseguição política à luta sindical. O mesmo processo ultramonopolista é verificado em outros ramos da economia: agropecuária, mineração, construção civil, automotivo, etc.
Outro importante efeito do neoliberalismo e do toyotismo é o aumento da exploração dos trabalhadores com o desmonte da rede de seguridade social, com a flexibilização dos contratos de trabalho, com o fechamento de postos de trabalho por causa da automação da produção (desemprego estrutural) e a ampliação da exploração de mão de obra em escala global com a transnacionalização da produção. Portanto, o aumento da concentração de capitais (formação de oligopólios mundiais) e o aumento da exploração dos trabalhadores (acumulação flexível) permitem afirmar que a fase monopolista de Estado foi superada e o capitalismo entra numa nova fase “ultra-monopolista”.
O sucesso desse modelo de organização produtiva se manifesta no grau de desenvolvimento capitalista asiático. Os maiores níveis de crescimento do complexo euroasiático indicam um deslocamento das funções econômicas de importância estratégica na semiperiferia, tendo a América Latina perdido espaço para as economias de países asiáticos, especialmente China e Índia. Hoje, o maior projeto capitalista mundial é a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), conhecida como “Nova Rota da Seda”, um projeto de infraestrutura e desenvolvimento global lançado pela China em 2013. O objetivo é reconstruir rotas comerciais que liguem a China à Europa, África, América Latina e outras partes da Ásia através de investimentos em infraestrutura como portos, ferrovias, estradas, comércio e projetos energéticos. Até 2024, mais de 100 nações já haviam aderido ao projeto, que movimentou mais de um trilhão de dólares em investimentos.
Apesar do Brasil não ter aderido diretamente à Nova Rota da Seda, uma parceria bilateral entre Brasil e China para construção de uma ferrovia “transcontinental” ou “bioceânica”, inicialmente pensada em 2015, retoma força agora e pretende redesenhar a logística da América do Sul com a construção da mega-ferrovia que ligará o Oceano Atlântico ao Pacífico, do Cerrado Brasileiro ao Porto de Chancay (Peru), e dali para a China. Ao ligar a produção diretamente a esse porto, os Estados e burguesias sul-americanas reduziriam a dependência dos embarques via Canal do Panamá ou rotas mais longas pelo Atlântico, reforçando sua integração ao mercado capitalista asiático, reforçando ainda mais o setor agroextrativista interno e, consequentemente, aprofundando a condição de Dependência. A possibilidade de concretização da ferrovia, no entanto, é uma grave ameaça à hegemonia dos EUA e Europa na América Latina.
Assim, a maior mudança no sistema imperialista nesse século XXI é o despontar econômico capitalista da China, disputando a hegemonia comercial e de investimentos de capital (Investimento Estrangeiro Direito) com os EUA e demais potências imperialistas na América Latina, África e Ásia, em especial nos setores de infraestrutura, mineração, recursos energéticos e novas tecnologias A China é atualmente a segunda maior economia do mundo em termos de Produto Interno Bruto (PIB) nominal, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. No entanto, quando se considera o PIB em paridade do poder de compra (PPP), a China já ultrapassou os EUA e é considerada a maior economia do mundo. Em relação à economia brasileira, a China é o principal parceiro comercial do Brasil, com um volume de importações e exportações que supera o dos EUA.
Esse crescimento econômico asiático tem gerado maior pressão competitiva sobre as demais regiões da semiperiferia e mesmo do centro. Assim, a reestruturação produtiva e as reformas do Estado, presentes na atual etapa do imperialismo, levam a mudanças nas relações do centro com a periferia, e acentua ainda mais a importância da depreciação da taxa de salários, da pilhagem de recursos e da exportação de capitais como fórmula de resolver a crise do capital e retomar o crescimento e o desenvolvimento da acumulação de capital. Isso significa que, mais do que nunca, o imperialismo opera especialmente pela superexploração do trabalho, pela exportação de capitais, pela pilhagem de recursos e não pelas “trocas desiguais”.
Um dos principais efeitos da atual etapa de desenvolvimento mundial capitalista é a extensão do proletariado marginal (pelos trabalhadores submetidos à esfera inferior do duplo mercado e formas de acumulação primária). Se o movimento de massas e as organizações revolucionárias não se colocarem a necessidade de organizar o proletariado marginal (terceirizados, precarizados, desempregados, informais, etc.) continuarão reduzidas as possibilidades de avanços na luta da classe como um todo, isso porque a nova fase do capitalismo coloca uma nova estrutura de classe, onde essa fração tem um papel central na acumulação de capital.
Por outro lado, a crise do imperialismo ianque tem se manifestado tanto internamente, com o grande crescimento dos conflitos sociais e políticos internos, resolvidos em grande maneira à favor do fortalecimento político da extrema-direita nacional-imperialista representada por Trump, quanto externamente, com a dificuldade de sustentar (política e economicamente) a quantidade de guerras que se envolveu nas últimas décadas, e que saiu derrotado ou parcialmente derrotado (Afeganistão, Ucrânia, etc.). Um fato essencial da política de Trump é o reconhecimento da crise do Império e a necessidade de tomar medidas para torna-lo forte novamente, daí o “Make América Great Again”. Algumas marcas dessa política (expressas na Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump) tem sido a “guerra” tarifária e comercial, a busca pela reindustrialização interna, a reafirmação do Dólar, e, principalmente, o giro geopolítico e econômico do imperialismo ianque para a centralidade da América Latina nas disputas políticas, militares e econômicas mundiais, revalorizando a região e requentando abertamente a Doutrina Monroe, especialmente no que tange à “ameaça chinesa”.
Com grandes conflitos militares desgastando já todos os continentes do mundo desde o início do século XXI, com exceção do continente americano, tudo tem indicado que a América Latina poderá ser novamente um palco preferencial de disputas imperialistas. A estratégia de segurança nacional dos EUA fala abertamente nisso. Após à falida “guerra ao terror” patrocinada por George Bush e outros presidentes ianques, que levou a destruição e a pilhagem de países árabes, agora a “Doutrina Trump” elege o que chamam de “narcoterrorismo” na América Latina como ameaça central à sua segurança interna. É a nova ideologia da dominação do Império em crise, que hoje ameaça a invasão militar da Venezuela e já comete roubos de petróleo e assassinato de civis no mar do Caribe. É a ameaça de intervenção militar no Canal do Panamá e na Colômbia. A pressão imperialista conta para isso com a conivência e apoio de setores das burguesias latino-americanas, da pequena burguesia, de partidos de direita e de esquerda, mas fundamentalmente, com o impulsionamento de partidos e líderes de extrema-direita no continente, abertamente entreguistas.
2.2 – A nova guerra fria e o acirramento das disputas imperialistas
Há uma nova guerra fria em curso, relacionada por um lado à crise do imperialismo ianque e, por outro, à ascensão do imperialismo chinês. Essa é a principal constatação que se impõe para as disputas geopolíticas e econômicas a nível internacional. Desde o início dos anos 2000, em especial com a crise financeira de 2007-2008 e posteriormente com a crise pandêmica de 2020-2023, o conflito político, econômico e militar entre EUA-U.E x China-Rússia se aprofundou drasticamente.
O conceito de “guerra fria” (usado no século XX) indica que existe um confronto político, econômico e militar indireto entre superpotências e seus aliados, confronto esse que é regido por um pacto de não agressão, que por sua vez intensificavam o militarismo e os confrontos militares fora das suas zonas de segurança, ou seja, em países coloniais, periféricos e semiperiféricos. Mas esse “pacto de não agressão” pode ser rompido, condicionado pelo acirramento das disputas econômicas e políticas, levando a uma nova guerra mundial, mas também podem haver outros desfechos que impeçam ou antecipem essa conflagração direta, como uma nova era de revoluções, golpes, crises internas das potências, etc. A guerra fria entre EUA x URSS não desembocou numa guerra “quente”, ainda que a ameaça militar e nuclear fosse real.
O mundo unipolar sob o domínio do império ianque foi o resultado das relações de poder no sistema capitalista mundial após o fim da URSS. A nova guerra fria é o resultado da crise hegemônica do imperialismo dos EUA e Europa e do fortalecimento econômico e geopolítico da China e da Rússia.
Mas a política econômica que opõe hoje cada um dos blocos não é mais o “socialismo real” e o “capitalismo”. As diferenças de ideologia desapareceram e o confronto é pela disputa de hegemonia no sistema interestatal capitalista. Isso significa que, ao contrário da primeira guerra fria, quando existiam forças revolucionárias autênticas (socialistas e de libertação nacional) que buscavam abrigo sob a política da URSS-China, hoje, a política da China e da Rússia é de destruir essas forças apoiando os governos capitalistas de turno em benefício dos interesses de suas próprias classes dominantes. Assim, a guerra fria atual não reflete a luta de classes internacional do proletariado contra o capitalismo e o imperialismo, mas a luta entre frações da burguesia pela conquista global de mercados, recursos e força de trabalho.
A nova guerra fria tem tido como cenários principais as guerras da Ucrânia, da Palestina, da Síria, da Venezuela, além das disputas/corrida entre EUA-UE e China-Rússia por mercados e investimento de capitais na Ásia, África e América Latina, assim como as disputas por recursos minerais e energéticos diretamente relacionados à nova etapa de acumulação de capitais altamente tecnológicos e digitais (tal como as terra raras no Brasil, em negociação entre o governo social-entreguista de Lula-Alckmin e o governo reacionário de Trump).
As eleições presidenciais no EUA, com o retorno de Donald Trump ao governo, mostram que frações importantes da burguesia estadunidense, frente a tendência de perda da hegemonia, estão apostando numa solução conservadora, militarista, em uma política comercial protecionista, numa política externa de pressões por alinhamento “total” de países satélites e subordinados. A América Latina inteira está sob ameaça direta ou indireta dos EUA. Estamos entrando em um período de morte das ilusões (de liberais e reformistas) de um mundo regido pelas relações entre países soberanos e independentes (mas sempre sob a tutela do mundo unipolar comandando dos EUA). A falsa “paz” e “democracia” sob o tacão imperial, a Pax Americana, está em crise. As margens para uma política externa “neutra”, onde se tiram vantagens dos dois blocos imperialistas, em particular na América Latina, estarão ainda mais reduzidas no próximo período.
Essa política de “alinhamento total” (com tradição desde a Doutrina Monroe), no entanto, possui limites, especialmente em países dependentes semiperiféricos como Brasil. Existe um processo contraditório nas disputas capitalistas, ditadas pelos graus de soberania das burguesias e Estados dependentes, atravessados pela força alcançada pelos grandes blocos imperialistas em conflito. Por exemplo, a China já é o principal parceiro comercial do Brasil (país mais importante do subcontinente), já possuem um sem-fim de projetos econômicos e investimentos estratégicos na América Latina, África e Ásia. Por outro lado, o peso nos níveis político e militar do imperialismo ianque ainda é hegemônico na América Latina e é daí que retira sua principal força (vide a ameaça militar à Venezuela). As possibilidades dos EUA reverterem, ou mesmo interromperem a penetração econômica da China na América Latina são limitadas, e se assentam fundamentalmente em bases políticas e militares. Essa é a corda bamba da nova guerra fria, que pode levar a uma 3ª Guerra Mundial, golpes militares, neocolonialismo e demais formas de conflitos.
Por outro lado, no terreno da disputa ideológica, a solução por meio da restauração de um “sistema mundial multipolar” é hoje elevada como ideal “democrático” das burguesias e Estados em ascensão (China e Rússia, especialmente). No entanto, um mundo multipolar não é nenhuma novidade na história do capitalismo, tampouco significa o fim do imperialismo, ao contrário, é sob uma realidade “multipolar” que as grandes teorias do imperialismo, revoluções proletárias e lutas anti-imperialistas se desenvolveram ao longo do séc. XX. As duas grandes guerras mundiais no século passado se desenrolaram sobre uma base “multipolar”, e tiveram como ideologias burguesas-imperiais a “defesa de suas soberanias”, etc. A multipolaridade hoje erigida como bandeira ideológica do eixo China-Rússia representa a reivindicação tradicional do “direito” das classes dominantes dessas potências mundiais e regionais elevarem sua participação na partilha de territórios, áreas de influência, recursos naturais e taxas de lucros, em oposição ao “exclusivismo” das potências hegemônicas (EUA e Europa). São, portanto, políticas anti-hegemônicas, mas não anti-imperialistas, muito menos anticapitalistas.
Devemos analisar e combater as ideologias legitimadora de ambos os blocos imperialistas, a fim de armar ideologicamente as massas populares, com intenção de caminhar para desvelar a real natureza (política e econômica) das atuais disputas em curso. A ascensão do imperialismo ianque em escala global também foi marcada por ideologias legitimadoras (democracia, direitos humanos, modernização, etc.) que ganharam a adesão em maior ou menor grau das esquerdas no mundo e foram uma expressão da falta de independência de classe e da integração sistêmica dessas organizações. Historicamente, as classes e impérios em ascensão ao poder aparentam maior legitimidade e oportunidades em relação aos impérios ou classes em decadência. Mas para uma política socialista revolucionária não se trata de trocar uns exploradores e poderosos por outros, consiste precisamente em mobilizar as massas trabalhadoras para destruir o sistema de exploração e dominação vigente. Na atual situação devemos combater tanto a política “democrática” alinhada aos interesses dos EUA, como a política “multipolar” alinhada aos interesses estratégicos da China.
2.3 – O internacionalismo, o anti-imperialismo e as tarefas dos revolucionários hoje
As crises geradas pelo acirramento das disputas imperialistas podem favorecer movimentos proletários e revolucionários a nível global, assim como a redução do poder hegemônico dos EUA pode favorecer isso, mas apenas poderão ter esse desenvolvimento histórico na medida em que as vanguardas e organizações de massas não se deixarem encantar pelos cantos de sereia das velhas e novas burguesias, na medida que construam de fato condições teóricas e práticas de uma ação revolucionária e proletária independente a nível nacional, continental e mundial de luta contra o sistema capitalista-imperialista. Infelizmente ainda estamos longe das condições (teóricas e práticas) para aproveitarmos o acirramento das disputas interburguesas em favor dos interesses históricos do proletariado.
Diante desse cenário, desde já é importante a análise e um combate permanente pela autodeterminação dos povos, pelo anti-imperialismo, contra as guerras imperialistas e colonialistas, contra a superexploração das massas populares nos países periféricos e centrais, em solidariedade à resistência dos povos oprimidos. A nossa solidariedade frente às agressões imperialistas não deve se confundir com adesão acrítica e idealizada sobre governos e partidos envolvidos nos conflitos, especialmente quando implicam cenários policlassistas e confusos, mas tampouco devemos nos colocar no papel de “conselheiros” externos daqueles que morrem e vivem nos campos de batalha da resistência.
Devemos imprimir nossas concepções socialistas revolucionárias em uma ação solidária autêntica, com nossas palavras de ordem e prática militante, sem ilusões, voltadas às massas populares dos países em resistência, mas fundamentalmente sem reproduzir um certo elitismo autoproclamatório e “conselheiro” dos povos em luta. Tampouco devemos aderir ao estilo esquerdista brasileiro de mil “notas de apoio” sobre tudo o que acontece no mundo e pouca intensão real de ação desde as nossas próprias realidades. Devemos caminhar, na medida das nossas forças e do nosso desenvolvimento, para uma luta anti-imperialista e internacionalista articulada à ação militante desde as bases, da luta de classes nacional para a luta de classes continental e internacional. Nesse sentido, iremos buscar alianças e parcerias internacionais, especialmente latino-americanas, não baseadas em preceitos ideológicos restritos (como fazem hoje grande parte das esquerdas anarquistas, trotskistas, leninistas, nacionalistas, etc.), mas baseadas prioritariamente em interesses comuns, na capacidade de criar laços e campanhas classistas conjuntas, de lutas concretas contra empresas transnacionais e governos, etc. e que, a partir dessa ação militante não-dogmática, contribua para a reorganização de uma nova linha revolucionária, proletária e socialista a nível continental e mundial.
Para isso precisamos analisar as guerras, conflitos e resistências em curso no mundo (nem todas são iguais, em natureza e em agentes sociais e políticos envolvidos) para daí tirarmos as lições e linhas de ação para a luta desde o Brasil.
O genocídio contra o povo palestino, praticado pelo Estado Sionista de Israel e pelos EUA (e com a omissão criminosa da China, Rússia e Brasil entre outros), é o maior fato político do nosso século. Ele demonstra até onde pode chegar a máquina de guerra imperialista para a manutenção de seus interesses geopolíticos e econômicos no Oriente Médio e no mundo. O véu “democrático, humanitário e liberal” das potências internacionais e regionais alinhadas ao bloco EUA-UE se desfaz rapidamente, apesar de toda legitimação de “soberania” e de “guerra de defesa” contra o Hamas que são usadas para legitimar a ação colonial e genocida israelense. A ameaça de Trump à Venezuela e à América Latina, apesar encontrar a resistência também de Estados e, portanto, de exércitos regulares, se coloca na mesma situação de uma guerra imperialista clássica (tipo Iraque e Afeganistão) por exploração de recursos, mão de obra e poder político. Conta também com o apoio direto e indireto de governos e setores sociais lacaios do imperialismo, tal como evidenciado pelo governo Lula e a sua política social-entreguista, setores da burguesia venezuelana, etc. Assim, a guerra imperialista contra a Venezuela e a Palestina devem receber toda atenção dos revolucionários brasileiros apoiando as resistências a partir, especialmente, dos métodos clássicos do proletariado: a ação direta, ou seja, greves, sabotagens, boicotes, protestos, mobilizando os locais de trabalho e moradia e enfrentando as burocracias sindicais e partidárias.
No caso da pressão de Trump à América Latina, no qual estamos implicados diretamente, temos maior capacidade de intervir e combinar a luta anti-imperialista com as tarefas da luta socialista e revolucionária latino-americana: combate às burocracias e governos “progressistas” e “reacionários”, combate às classes dominantes nacionais associadas do imperialismo, apoio ao armamento geral do povo e às lutas guerrilheiras de libertação, defesa da ação direta proletária e da independência de classe nas lutas e revoltas populares, etc. podendo gerar a partir desses processos diversos e, por vezes contraditórios, o fortalecimento de um campo de aliança classista e revolucionária continental. Esse é um aspecto central da nossa estratégia.
A guerra na Ucrânia apresentou um cenário mais complexo. O território e o povo ucraniano são alvos do choque entre dois projetos imperialistas (econômicos e geopolíticos) em expansão na região (Rússia x OTAN), que tem levado a uma nova corrida armamentista no continente europeu e, com a provável derrota da OTAN, a remodelagem geopolítica do próprio continente e seus países. Em defesa do verdadeiro internacionalismo proletário e da autodeterminação dos povos, na Ucrânia não devemos apoiar nenhum dos blocos imperialistas em guerra, nem Rússia, nem OTAN. A guerra na Ucrânia demonstra a tragédia do governo títere e entreguista de Zelensky, assim como da sanha expansionista da OTAN e de Putin. A vitória de qualquer um dos blocos, nas condições atuais, não representam uma política anti-imperialista, muito menos anticapitalista.
Por outro lado, a Síria, que vive uma guerra civil desde 2012, passa por mudanças significativas e que colocam em xeque as possibilidades de uma alternativa revolucionária e anti-imperialista na região. Logo após o golpe de Estado na Síria pela gangue pró-ianque e pró-expansionismo turco Hayat Tahrir al-Sham (HTS), a maior liderança curda da região, Abdullah Ocallan, anunciou, diretamente da prisão na Turquia, a dissolução do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e o fim da luta armada para trilhar um novo caminho “democrático” e “pacífico”. A Casa Branca sob o governo Trump saudou a declaração de Ocallan e a capitulação da cúpula do PKK. O porta-voz do Conselho de Segurança Nacional ianque falou que foi “um desenvolvimento significativo e esperamos que ajude a acalmar nossos aliados turcos sobre os parceiros anti-ISIS dos EUA no nordeste da Síria. Acreditamos que ajudará a trazer paz a esta região problemática”. Na prática a dissolução do PKK também tende a favorecer os governos da Turquia e de Israel.
Nós sabemos o preço pago e o grande legado da luta armada das massas populares curdas, sob a liderança do PKK, sejam na Turquia, Síria, Irã e Iraque. Por isso essa capitulação atingiu em cheio milhares de militantes e lutadores que acreditavam sinceramente na luta curda como vanguarda de uma política revolucionária anticapitalista e socialista global. No entanto, é importante ver as coisas como são, não fantasiar a realidade, se queremos nos manter firmes na luta popular revolucionária. Sobre a reorientação do PKK:
- Em primeiro lugar: deve estar claro que é uma capitulação a um tipo de democratismo burguês e integracionismo dos curdos no Estado turco via partidos eleitorais, etc.
- Segundo: as alianças e compromissos táticos dos curdos com os EUA, que se justificavam por um prisma tático-militar, e geraram vitórias militares importantes contra o Estado Islâmico, foi gerando um estrangulamento dos objetivos estratégicos de consolidação de Rojava e de uma política anti-imperialista para a região. O consequente isolamento político em relação aos grupos de resistência árabe no Oriente Médio, a dubiedade em relação a Israel e ao sionismo, a remodelação da Síria em favor dos interesses estratégicos dos EUA (apoiados por Israel e Turquia), geraram um “beco sem saída”. Isso se encaixa no que Abraham Guillen falou sobre a guerra: “Os sucessos táticos que constituem, a longo prazo, derrotas estratégicas, devem ser evitados por todos os meios.”
- Terceiro: É necessário fugir da romantização ocidental acrítica que dominou setores libertários, progressistas e de esquerda ao redor do mundo. É um momento pra aprendermos com os nossos próprios erros também. Não desconsiderar a experiência da luta curda, inclusive seguir em solidariedade no que diz respeito à luta contra a violência das potências regionais e imperialistas, mas fazer uma análise crítica rigorosa, sem “passar o pano” e sem renovar romantizações.
- Por fim: Não existe “era de paz e de democracia”, como afirma Ocallan, muito pelo contrário. Existe um avanço da hegemonia imperialista estadounidense na região, e um acirramento das tensões militares e geopolíticas no Oriente Médio e no mundo. A definição do PKK vai no sentido contrário do desenvolvimento da situação objetiva, para justificar a sua capitulação democrático-burguesa.
Frente a guerra na Ucrânia e Síria uma grande parte da esquerda brasileira demonstrou em escala internacional a mesma falta de independência de classe que possui internamente. Sejam os apologistas do bloco sino-russo (e de suas instituições como o BRICS), como fazem PCdoB e setores do PT, sejam os apologistas do Estado Ucraniano e das “revoluções democráticas” na Líbia e Síria (vinculadas aos interesses dos EUA/OTAN), como fazem PSTU e setores do PSOL. Majoritariamente, a esquerda brasileira, por uma tradição reformista e pequeno-burguesa, tem sido incapaz de pensar fora das polarizações burguesas e estatistas.
Tudo isso demonstra a importância de retomar a nossa tradição socialista revolucionária. Ambos os blocos imperialistas (EUA-OTAN x China-Rússia) se utilizam, comumente, do argumento de “guerra de defesa” e “soberania nacional”, mas isso não é novo. Essa perspectiva foi presente nas disputas políticas que precederam a Primeira Guerra Mundial, sendo radicalmente combatida por setores revolucionários do movimento operário (bolcheviques e anarquistas), mas que tiveram a adesão da maioria dos partidos social-democratas europeus que capitularam ao social-chauvinismo, ou seja, à política de apoiar seus países e burguesias nacionais em nome da “autodeterminação nacional”. O Partido Social-democrata Alemão foi o principal representante do social-chauvinismo, política oportunista e burguesa que destruiu a II Internacional. Lênin apresentou a política mais correta de um ponto de vista classista e revolucionário: o argumento de “guerra de defesa” e “soberania nacional” (defendido por todas potências em guerra!) eram falácias para justificar a luta entre os capitalistas por seus lucros, recursos e poder; era necessário rejeitar a guerra e suas “ideologias nacionais”, atuando entre as massas dos seus próprios países (sobre as contradições geradas pela guerra: fome, desemprego, etc.) para transformar a guerra imperialista em guerra civil, ou seja, em ações diretas e revoluções proletárias contra seus próprios governos e burguesias. Essa política revolucionária em um contexto de guerra injusta, interimperialista, defendida inicialmente por uma minoria de revolucionários, ganhou as massas russas e saiu vitoriosa com a revolução russa, não só botando fim à Guerra, mas iniciando uma era de revoluções pelo mundo.
Por sua vez, as guerras de libertação nacional ao longo do século XX atualizaram e enriqueceram a política revolucionária frente ao imperialismo e ao colonialismo. Vietnam, Cuba, Argélia e outros processos demonstraram que os revolucionários não só poderiam, mas tinham o dever de apoiar e participar das lutas pela independência nacional dos povos e pátrias oprimidas. Era uma política para um contexto de guerras populares e nacionais de libertação, de resistência, defensiva, ou seja, quando não se dava entre duas ou mais potências imperialistas por riquezas e poder, mas por países e povos oprimidos. Essas lutas defensivas, apesar de imposições da realidade histórica e geográfica de cada país, apresentaram limitações evidentes quanto aos seus horizontes emancipatórios, exigindo desde o início que os revolucionários e o proletariado forjassem, ao longo desses processos de luta, fortes organizações (de vanguarda e de massas) independentes da burguesia e das concepções nacionalistas burguesas e capituladoras.
Apesar de vivermos hoje uma nova escalada do conflito imperialista em escala mundial, não temos uma base de massas nem vanguardas revolucionárias preparadas e experientes que existiam no século XX. Existe um longo caminho a percorrer, mas não devemos capitular e abandonar os princípios por que “é isso que todos estão fazendo”. Os princípios são para manter o rumo nos momentos difíceis. Como disse Malatesta na época da Primeira Guerra Mundial: “É dever dos socialistas (…) fazer todo o possível para enfraquecer o Estado e a classe capitalista e tomar como único guia para sua conduta os interesses do socialismo; ou, se eles são materialmente impotentes para agir eficazmente por sua própria causa, eles devem pelo menos recusar qualquer ajuda voluntária a causa do inimigo e se afastar para salvar seus princípios – o que significa salvar o futuro”. Nossa tarefa, se não é viável ainda uma política revolucionária de massas, é fazer a luta ideológica através da agitação e propaganda pela independência de classe, contra o imperialismo e o oportunismo, apoiando as reivindicações e os métodos próprios do proletariado.
Por fim, é fundamental que analisemos com mais cuidado no próximo período: os investimentos econômicos e planos estratégicos dos EUA e da China no Brasil e na América Latina (tal como a ferrovia bioceânica, acordos comerciais, investimento estrangeiro direto, etc. tendo como marcos os lançamentos em 2025 da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA e o Documento sobre a Política da China para a América Latina); as bases militares ianques na América Latina; o desenvolvimento da política latino-americana através dos seus governos burgueses “progressistas” e “reacionários”, bem como das lutas e revoltas populares; os tratados comerciais do Brasil com outros países, tais como: Israel, Rússia, o acordo de livre comércio com a União Europeia, etc. Tudo isso deve ser analisado por nós com o objetivo de tirar lições para a luta de classe do proletariado e dos revolucionários, com um viés classista e internacionalista.
3 – Resoluções sobre o capitalismo brasileiro: luta de classes e luta de tendências
A análise do desenvolvimento capitalista brasileiro exige um balanço crítico das teses e programas que orientam as políticas dos partidos socialistas e comunistas, e também da economia política burguesa brasileira. Uma crítica da “economia política brasileira” de um ponto de vista revolucionário mostra as conexões entre o reformismo, o nacional-desenvolvimentismo e o neoliberalismo.
As teses do PT e do PCdoB (que constam nos programas dos respectivos partidos) mostram que suas intervenções políticas foram orientadas por certas teorias e análises da sociedade brasileira. Essas teses basicamente se constroem pela negação ou secundarização do conflito Capital-Trabalho, ou seja, da luta de classes, além da negação da via revolucionária insurrecional de transformação da sociedade substituída pela defesa estratégica eleitoral, a chamada Estratégia Democrático-Popular, seguida de forma aberta ou envergonhada pela ampla maioria do que se chama de esquerda brasileira.
O PT substitui no seu discurso e prática política a contradição entre “burguesia e proletariado” pela oposição “Sociedade Civil X Estado ou Governo”, que sustenta a sua defesa da “Democracia” como valor universal, tanto em escala nacional (em oposição ao fantasma do “fascismo”) quanto em escala internacional (em oposição à “unipolaridade”). Na ideia de sociedade civil estava implícita a aliança com a burguesia e legitimação dos seus interesses como interesses “universais” da “sociedade civil”. Ao mesmo tempo, o PT produziu um diagnóstico de que o problema central da sociedade brasileira estaria na “estagnação econômica”. A ideia de um pacto reunindo trabalhadores e empresários (a “sociedade civil”) é exatamente o produto dessa base teórica democrático-burguesa.
O PCdoB também indica, desde meados dos anos 1990, a existência de uma crise do capitalismo mundial e que o Brasil se encontrava também em uma “crise econômica”, caracterizada pela estagnação. A teoria e o programa do partido indicam a necessidade de desenvolver o “capitalismo nacional” como pré-condição da transição do capitalismo ao socialismo, e para isso seriam necessárias medidas de incentivo ao capital privado nacional e internacional. Ao mesmo tempo, os comunistas indicam que a contradição principal da sociedade brasileira seria “nação X imperialismo”, e entre “forças progressistas X conservadoras”, representantes dos interesses da nação e do progresso e os contrários a eles. Por isso, uma frente ampla reunindo trabalhadores e burguesia nacional seria necessária para realizar o desenvolvimento do capitalismo nacional.
Nesse sentido, a adesão ao neoliberalismo de forças como o PCdoB e PT não é casual nem o produto de uma “traição” ao seu programa, nem da contradição entre a prática e a teoria, mas ao contrário, é o fruto da aplicação de seu programa e teoria, sob certas condições históricas, em que as medidas neoliberais são as únicas que conseguem aumentar a competitividade de uma economia nacional dependente e periférica no sistema mundial e conseguir o apoio da burguesia nacional. É também o fruto da adaptação dos partidos aos aparelhos de Estado, da sua estratégia de conquista pacifica do Estado para desenvolver o capitalismo.
Ao longo do século XX e XXI esses partidos oportunistas vieram reduzindo sistematicamente a política a sua forma parlamentar e burguesa. O cretinismo parlamentar ganha a cabeça e os corações de quase toda a esquerda brasileira, mesmo das organizações que não possuem deputados ou senadores, que atuam e analisam a realidade como “proponentes” de políticas governamentais “viáveis” e “ponderadas”, alternativas para solucionar crises políticas e econômicas das classes dominantes, tendência esta reforçada pela dinâmica das redes sociais. Não se pensa e atua como verdadeiros líderes e vanguardas no seio das massas, ajudando-as a se organizar, a lutar, a se educar politicamente. Olha-se para cima, não para baixo.
O PSTU e o PSOL, ambos surgidos de dentro do PT, se mantêm no quadro teórico e programático reformista e suas contradições. Ambos os Partidos visualizam como marco estratégico programático a realização de uma “Assembleia Constituinte” para refundar as instituições políticas. Ao mesmo tempo, assumem a ideia de que a ofensiva “imperialista” sob a forma do capital financeiro é a principal característica do capitalismo mundial. Logo o imperialismo atua através do capital financeiro e pelo mecanismo da evasão de capitais e das trocas desiguais, e por isso as principais tarefas do movimento proletário seria a luta contra a “dívida externa” e a reativação do mercado interno. Mais uma vez se chega ao problema da “estagnação econômica” e a necessidade de conquista do Estado burguês pela via pacífica-eleitoral para resolver os problemas do desenvolvimento capitalista nacional. Voltamos à Estratégia Democrático-Popular.
Mesmo os partidos que estão no campo “antigovernista” têm teorias e programas que se inscrevem nos quadros de uma herança “ambígua”, que levam à necessidade do desenvolvimento capitalista, colocam implicitamente a contradição nação X imperialismo como principal (agora pretensamente representada pela oposição capital financeiro internacional X capital produtivo nacional), que podem ser percebidas pelas suas principais bandeiras. Assim, fica aberto espaço para uma nova aliança com a burguesia nacional em favor do “crescimento econômico”, “reindustrialização”, “soberania nacional”, “defesa da democracia”, etc.
Uma análise teórica mais séria indica que esses posicionamentos (as teses, análises e programas dos partidos oportunistas e reformistas brasileiros) estão fundados na teoria da revolução por etapas defendidos no Brasil pelos comunistas ortodoxos do PCB e também na estratégia democrático-popular formulada pelo PT. Também existem matrizes “nacionalistas” e “democrático-burguesas”, desenvolvidas no Brasil pelos membros da CEPAL (Comissão Econômica para América Latina).
As teorias da revolução por etapas e nacional-desenvolvimentista das reformas estruturais ou de base tiveram diversos intercâmbios teóricos e cimentaram alianças de socialistas, comunistas com setores nacionalistas e burgueses. Vários desses setores “cepalinos” migraram depois para o PT e PSOL. E tais teorias levam necessariamente a alianças com a burguesia. As principais características dessas teorias são: a) fetichização do Estado-Nacional, visto como agente neutro em relação às classes; b) a secundarização do conflito de classes (capital-trabalho); c) a análise da questão econômica do ponto de vista do capital e o negligenciamento teórico da questão da exploração.
Mas o capitalismo é baseado na exploração. Desenvolver o capitalismo é desenvolver a exploração. Tais teorias ignoram isso.
A experiência recente dos partidos reformistas brasileiros mostra que longe de equívocos ou traições, as suas práticas refletem essa constituição teórica e estratégica. Não somente no caso do PT, PCdoB e PSOL que foram levados ao campo da contrarrevolução em razão de suas premissas, mas também a prática oscilante de partidos como o PSTU, PCB e UP, sua fraseologia e práticas contraditórias os levaram a atuarem à reboque do Lulismo. A rápida degeneração do PSOL, aderindo ao Lulismo e economicamente ao neoliberalismo, assim como o seguidismo do PSTU, UP, PCB, PCO e PCBR à agenda Lulista e de setores das classes dominantes (como o STF e frações burguesas) atemorizados e mobilizados contra a “ameaça golpista”, pela “redução das taxas de juros” e taxação dos “super-ricos”, pela “soberania nacional” e diversificação das exportações, em defesa dos BRICS e etc. explicitam uma vacilação em suas práticas, à reboque da política burguesa supostamente em defesa da “democracia” e de um setor “produtivo e nacional”.
Para romper com tais contradições e práticas que hoje afundam a esquerda brasileira em crises, rachas e capitulações, é preciso romper com tais estratégias, programas e concepções.
3.1 – O desenvolvimento dependente brasileiro no século XX e XXI
A experiência do desenvolvimento capitalista brasileiro pode ser caracterizada a partir de dois conceitos solidários. Podemos dizer que o Brasil é um país que teve uma experiência particular do desenvolvimento dependente e também de desenvolvimento do subdesenvolvimento. Isso significa que a história econômica e política do Brasil apresentam características que precisamos compreender.
Ao caracterizarmos o Brasil como um país que teve a experiência do “desenvolvimento do subdesenvolvimento”, estamos falando de uma experiência que atribuiu uma posição específica na Divisão Internacional do Trabalho, na estrutura do imperialismo e do sistema mundial de Estados, bem como gerou características sociais e econômicas na estrutura social global e na estrutura de classes. Ao mesmo tempo, enfocamos um momento histórico da economia brasileira, aquele do desenvolvimento urbano-industrial.
A formação da sociedade brasileira é marcada pela sua origem colonial. O processo de colonização nas Américas e de formação dos Estados-Nacionais nessa região, eram integrantes de um processo mundial de “acumulação primitiva”, comandados pelas potências europeias. A evolução da sociedade brasileira, através do período da Colônia, do Império e da República, bem como dos ciclos econômicos, é condicionada pela relação metrópole-satélite. O Brasil surge então como país satelitizado pelo desenvolvimento capitalista europeu, e as relações de produção aqui existentes eram produzidas, transformadas e dirigidas através dessa relação.
O processo progressivo de construção do capitalismo no Brasil a partir da sua origem colonial (pela Lei de terras de 1850, depois pela abolição da escravidão e proclamação da República), condicionou a própria estrutura social e de classes. O Brasil do início do século XX era um país agrário-exportador, e as relações de produção aqui existentes eram determinadas de fora pela relação metrópole-satélite ou centro-periferia. A inserção do Brasil na DIT clássica era caracterizada pelo seu papel de fornecedor de matérias primas e importação de produtos industrializados.
As mudanças principais na estrutura social se darão a partir do século XX, em razão das mudanças no capitalismo mundial, com a consolidação do sistema imperialista. O período 1930-1980 será o da “revolução burguesa” no Brasil, revolução tecnológica e das relações de produção, social e politicamente autocrática. Nesse período, o Brasil tornar-se-á um recebedor privilegiado de capitais, exatamente pelas taxas maiores de lucro, possibilitada pela superexploração. Quer dizer, o proletariado brasileiro ocupava uma esfera inferior do duplo mercado de trabalho mundial. A estrutura do imperialismo operava pela centralidade das relações de exploração garantindo a expansão de capitais. Esses capitais é que conduzirão o processo de industrialização no Brasil. As mudanças decorrentes da industrialização foram principalmente a formação de um expressivo proletariado industrial (quantitativa e qualitativamente falando), bem como a elevação das taxas de crescimento econômico.
A posição do Brasil na DIT mudou nesse período. O Brasil deixou de ser apenas um país exportador de matérias primas e passou a ser um país industrializado que progressivamente passou a produzir inclusive bens de capital. O volume de capital investido colocou o país numa nova posição. A “perda” do país (para um movimento revolucionário) e mesmo crises econômicas ameaçariam a própria estrutura do imperialismo e a acumulação capitalista mundial. O Brasil passou então por um desenvolvimento que não acabou com a dependência, a transformou por um desenvolvimento que eliminou certas características econômicas do subdesenvolvimento (predomínio da agricultura e da exportação, pouca diversificação da estrutura produtiva), mas aprofundou as características sociais do subdesenvolvimento. O Brasil alcançou com isso a posição contraditória de semiperiferia, acima dos países subdesenvolvidos de outras regiões da periferia, abaixo dos desenvolvidos do centro.
Aqui o capital internacional, o capital nacional privado e o capital estatal conformaram o que se chamou de “tríplice aliança” e que garantiu o desenvolvimento dependente, ou seja, a acumulação de capital local em harmonia com a estrutura do imperialismo. Isto implicou que apesar do desenvolvimento industrial e do crescimento econômico, os grandes problemas sociais (desigualdade socioeconômica de classes, concentração fundiária, dependência externa) não foram resolvidos de acordo com o “modelo europeu de revolução burguesa”, exatamente porque a taxa de lucro buscada na periferia e semiperiferia exigia que não se fizesse concessões importantes à classe trabalhadora. Por isso a questão agrária, a questão urbana, da violência social e política, são problemas estruturais do capitalismo em geral mas que nos quadros de um país periférico não tem solução viável por reformas burguesas.
O processo de desenvolvimento dependente brasileiro contrariou as antigas teses dos marxistas ortodoxos e nacional-desenvolvimentistas. A estagnação econômica não só não era inevitável como ironicamente as taxas médias de crescimento econômico no Brasil no século XX foram maiores que as médias mundiais. A burguesia nacional e o Estado foram não os focos de contradição com o imperialismo, mas, ao contrário, um elemento central da associação do capital estrangeiro com o capital nacional na exploração conjunta da classe trabalhadora brasileira e latino-americana.
O Estado e o capital estatal foram fundamentais para viabilizar o processo de desenvolvimento dependente. A centralização estatal do período Vargas e depois, na Ditadura militar, com a expansão das empresas estatais e de sua função estratégica, confirmam a tese sobre a importância do Estado para o processo de acumulação de capital, e o caráter dialético das determinações entre política e economia. O desenvolvimento do Estado Nacional e suas funções de controle (e da ideologia estatista na classe trabalhadora) foram características presentes em todo o processo de industrialização brasileiro. A análise socialista revolucionária rompe com o fetichismo do “Estado neutro”, passível de ser agente do desenvolvimento em benefício de todas as classes.
Entre os anos 1980 e 2000, as mudanças na estrutura do imperialismo no sentido de um capitalismo ultra-monopolista provocariam transformações significativas na DIT e na estrutura de classes, afetando o Brasil. Aqui as mudanças de ordem macroeconômicas só começaram a acontecer nos anos 1990 em meio a uma grande recessão da economia mundial e brasileira. Essas mudanças se processariam no Brasil, especialmente após a redemocratização, quando os sucessivos governos (Collor, FHC e Lula) implementariam políticas neoliberais, em curso até os dias atuais. A mudança social, que se deu no plano político pela transição da ditadura para a democracia burguesa e na economia do intervencionismo para o neoliberalismo, mudaria profundamente as relações de produção, com impactos decisivos sobre a estrutura de classes, acentuando, porém, as velhas contradições da sociedade brasileira.
As transformações políticas neoliberais fazem parte da adaptação do Brasil à reestruturação do capital em escala mundial. Os governos Collor, FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro se inserem numa linha de continuidade de medidas neoliberais que visam garantir a inserção competitiva do Brasil na nova DIT. A realização de políticas sociais e assistencialistas durante os governos petistas, possibilitadas pelo “boom das commodities” no início do século XX, e, portanto, baseadas no aprofundamento do padrão agro-mineral-exportador, apenas confirma essa tese. A realização dessas reformas neoliberais (previdenciária, trabalhista, universitária, teto de gastos, etc) tem uma importância central no caso brasileiro, uma vez que a tendência mundial aponta para uma nova divisão do trabalho, em que a Ásia se apresenta como ambiente privilegiado da exportação de capitais. As reformas neoliberais se fazem quase que imperativas para o conjunto da burguesia no Brasil, pois elas permitem a construção de uma “nova competitividade”.
Outro elemento que precisa ser destacado é o da modernização conservadora na agricultura, em que o agronegócio exportador ocupa um lugar estratégico no novo modelo econômico, assim como a ampliação da exploração de minérios e recursos energéticos. Ocorre nas últimas décadas (tendo como marco o “boom das commodities”) um processo que interliga os interesses da burguesia nacional, da burguesia imperialista (especialmente da China) e do Estado brasileiro. Há uma desindustrialização profunda do país, com sérios indícios de reversão à uma condição “neocolonial”, de exportação de matérias primas e importação de industrializados e bugigangas (alimentando o setor informal e precarizado), condição oficializada também em tratados comerciais como o Mercosul-UE. O papel que a grande burguesia agrária e mineral cumprem na economia, política e sociedade brasileira, tanto para a ascensão dos governos de direita de Temer e Bolsonaro, quando para os governos petistas, é gigantesco. O governo Lula-Alckmin bate recordes em Plano Safra e atua como um lacaio dos interesses do “agro”.
Por outro lado, avança hoje no Brasil, diretamente relacionada à base econômica neoliberal, o fortalecimento do autoritarismo e da repressão estatal (e paraestatal) contra as massas populares. Uma série de medidas legais vem servindo para reprimir o povo e suas organizações de luta: a Lei de Drogas, a Lei Antiterrorismo, a GLO, a criação da Força Nacional, o aumento dos gastos militares e policiais, o aumento do poder judiciário e do STF, além de dezenas de Projetos de Lei com o objetivo de criminalização de ocupações populares de terra e de moradia. Aumenta também as políticas antissindicais, especialmente contra o proletariado marginal, mas também com o aumento de declaração “ilegal e abusiva” das greves em geral.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025), em 2024 as polícias brasileiras mataram 6.243 pessoas (17 por dia), dentre os quais 99,2 % era homens, 82% negros e a maioria eram jovens. O estado que mais mata é o do Bahia, governado pelo PT. Além disso, apesar da criação do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) pelo governo Lula-Alckmin, e conjuntamente a aprovação do Marco Temporal e do PL da Devastação, segundo o relatório “Violência contra os povos indígenas no Brasil – 2024” nos últimos dez anos os casos de assassinatos de indígenas cresceram 201,43%, passando de 70 casos em 2014 para 211, em 2024.
Em relação à violência criminal e paramilitar, o crime organizado vem se descentralizando e adentrando na questão agrária e na política dos interiores, tal como o registro de interferência com violência e assassinatos políticos pelo crime organizado em cerca de 40 cidades no Brasil desde as últimas eleições. O movimento paramilitar “Invasão Zero” cresce e se organiza por todo o Brasil, enfrentando especialmente movimentos e lutas camponesas locais e regionais, no interesse de fazendeiros e latifundiários reacionários, com o apoio direto ou velado do Estado brasileiro. O movimento organizou seu primeiro encontro nacional no dia 07/06/2025 em Ilhéus (BA). O trabalho informal nas grandes cidades, especialmente de ambulantes e feirantes, que hoje representa quase a metade da classe trabalhadora brasileira é cada vez mais vítima de violência sistemática de órgãos especializados do Estado apoiados pela polícia militar para roubar e agredir os trabalhadores.
Há 40 anos o Estado brasileiro vive seu maior período “democrático”. Porém, ao longo desse período cresce o caráter contrainsurgente do Estado, seja pela continuidade de dispositivos da Ditadura, seja por novos instrumentos legais e ilegais que são acionados pelas classes dominantes. Os governos de Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro avançaram nessa mesma direção. A “estabilidade” da Nova República burguesa tem se dado às custas de incorporar, na sua dinâmica de funcionamento, meios legais e ilegais, militares e paramilitares, de repressão, perseguição e terrorismo de estado contra as massas trabalhadoras, em especial do proletariado marginal e do campesinato, contando para isso com a conivência das burocracias sindicais e partidárias do PT, PCdoB e seus satélites, integradas e interessadas na manutenção da ordem democrático-burguesa da qual se beneficiam. A inexistência de organizações revolucionárias com influência de massas e capacidade militar de autodefesa é o principal fator de desproteção e impotência do proletariado brasileiro frente às ofensivas do Estado e do Capital.
4 – Resoluções sobre crise política, luta de classes e eleições de 2026
Não cabe aqui repetir todos os elementos da nossa análise de conjuntura política, mas atualizar e reforçar novos elementos, tirando lições e balanços para a nossa ação militante. A base inicial da nossa análise sobre distintos aspectos da realidade brasileira, da crise de organização e direção do proletariado, etc. estão presentes no nosso Comunicado nº1 do GLP “Quem somos e quem são nossos inimigos”.
O ataque comercial de Trump ao Brasil no 1º semestre de 2025 revelou e se vinculou à dois fatores da conjuntura política nacional: o processo de prisão de Bolsonaro e a política governamental-eleitoral de Lula até 2026. A “guerra comercial” foi providencial para o governo e os setores lulistas do movimento sindical e popular. Na iminência de Bolsonaro ser preso e se tornar carta fora do baralho eleitoral, dificultando a agitação “contra a ameaça fascista”, o Lulismo e seus satélites encontraram uma nova bandeira para lhe servir de plataforma: a defesa da “soberania nacional” e vinculá-la a bandeira “antigolpista”. Hoje o Lulismo se apresenta com sua legitimidade renovada: são os setores que tem um programa de reformas neoliberais e de fortalecimento da burguesia brasileira, mantendo um verniz “democrático e soberano” de defesa das instituições e do desenvolvimento capitalista.
Alguns elementos da atual conjuntura política brasileira podem ser resumidos: 1) a esquerda lulista aproveita eleitoralmente a situação de prisão de Bolsonaro e taxação de Trump; 2) se aprofunda a divisão da direita com a política entreguista e ultra-ideológica do bolsonarismo; 3) frente a taxação de Trump aumenta a coesão momentânea de frações burguesas, da direita e da esquerda “radical” em torno do Lulismo; 4) dificuldade da direita encontrar um novo nome que a unifique politicamente; 5) as esquerdas “radicais” (PSTU, PSOL, UP, PCB, PCBR) se submetem novamente à agenda Lulista em torno da “luta contra o Congresso” e pela “Soberania”, ou seja, saem mais uma vez como apoiadoras do governo em crise, hipotecando inclusive seu voto à Lula no 1º ou 2º turno em 2026; 6) apesar da impossibilidade de aceitar na íntegra a chantagem de Trump, o governo Lula-Alckmin pratica uma política social-entreguista, conciliando um acordo “menos pior” que favoreça acima de tudo os interesses do imperialismo (terras raras, big techs, etc.).
Mas essa tendência política de favorecimento do Lulismo tem limites. A curto prazo: apesar da prisão e inelegibilidade de Bolsonaro, ainda existe força política do bolsonarismo, com bases sociais nas elites religiosas, na pequena-burguesia, setores do capital e das forças armadas. O Bolsonarismo conta com várias lideranças políticas de extrema-direita disputando o “pódio”. A sua base, ainda que na defensiva, segue mobilizada e renovando o discurso “contra as instituições” e “antissistema” que tem apoio popular. Outro elemento central da conjuntura, que age no subterrâneo das relações sociais, mas com uma potência muito forte, é a manutenção da superexploração e da precarização da classe trabalhadora, esse é o principal fator da luta de classes nacional, comum ao projeto neoliberal da direita e da esquerda, e que representa o foco de qualquer ação classista e revolucionária.
No médio prazo a situação é bem pior, “catastrófica” para a estratégia político-eleitoral do PT. Desde a redemocratização a construção do PT se deu em torno à redução parlamentar e eleitoreira da política, bem como ao reforço do personalismo de Lula. Com a impossibilidade de Lula concorrer às eleições de 2030 (ou perder em 2026, ou morrer no meio do mandato), e a incapacidade flagrante do PT em formar novas lideranças de massas e reconstituir suas bases sociais, existe uma tendência muito forte de implosão do PT, não necessariamente levando-o ao fim, mas levando-o a sua adequação ainda maior à ordem burguesa como partido tradicional e à novas rupturas nas suas já parcas bases partidárias, sindicais e populares. Por toda a importância do PT e de Lula na política nacional, os revolucionários devem analisar e se preparar para intervir nesse novo contexto.
4.1 – Renovação do Oportunismo ou Reorganização da luta proletária e revolucionária
A situação de defensiva, refluxo e crise das massas trabalhadoras impõe um período desfavorável para a ação militante, mas não impossível. A principal tarefa dos revolucionários é impedir a debandada político-ideológica dos militantes e a passividade das massas. Não é um contexto de ofensivas, ainda que lutas locais e setoriais podem ocorrer. Mas os antagonismos sociais se acumulam, pela precarização do trabalho e das condições de vida, levando a nossa classe para luta mesmo sem uma ampla consciência e organização capaz de garantir vitórias mais substantivas. Nosso povo vai à luta na base do ódio, da necessidade e do desespero, de forma reativa, e comumente perde por ainda não conseguir construir um poder próprio, se tornando vítimas inevitáveis de todo tipo de aproveitadores.
Os partidos e organizações de esquerda, reformistas ou revolucionárias, tem se afundado em confusões e rachas decorrentes da posição política frente ao PT. A raiz da crise e ruptura nas esquerdas é concreta: vivem à reboque e das migalhas do PT, não possuem independência real, não apenas política ou estratégica, mas também de base social. Na medida em que a política lulista renega a organização e luta de massas, substituindo-as pelo mais podre eleitoralismo e personalismo, as demais esquerdas perdem junto com o PT uma base orgânica de massas. Por isso se torna importante o apoio dos revolucionários aos polos organizativos independentes do Lulismo, transitórios ou permanentes, tal como os “fóruns de luta”, “oposições unificadas”, em especial o fortalecimento nacional da CSP-Conlutas. Deve-se enfrentar em todos esses espaços as contradições e limitações inevitáveis com uma política própria, classista e combativa. Mas a política revolucionária não pode, tampouco, se restringir a esses espaços.
A tendência política no curto-médio prazo é a decadência final do lulismo. Esse será o pano de fundo das disputas no curto-médio prazo na política nacional, tanto na esquerda quanto na direita. Os socialistas revolucionários devem saber intervir nesse contexto de crise política, não para renovar a estratégia reformista e eleitoreira, mas para destruí-la através de uma intensa luta ideológica. A política de Renovação do Oportunismo (que se apresenta como “renovação da esquerda”) é em maior ou menor grau reproduzida pelo PCBR, UP, PSTU, PCB, setores à esquerda do PT, PCdoB e PSOL. Não rompem com a teoria e a prática que levaram à degeneração do Lulismo, mas querem se reposicionar/diferenciar para “ocupar o vazio” que se abrirá (e que já vem se abrindo com o horizonte de fim eleitoral de Lula). As redes sociais, e não as lutas e organizações populares, tem sido o triste palco desse circo.
Essa política de Renovação do Oportunismo se manifestará nos processos de reorganização do movimento sindical e popular brasileiro. Hoje uma grande parte das lutas já não tem uma participação decisiva das velhas burocracias do PT, PCdoB, CUT, MST, MTST, UNE, etc. Há um notório afastamento da esquerda eleitoral da base trabalhadora e suas lutas. Quando falamos em reorganização da classe, é um processo que não ocorre de um dia pro outro, é um processo que já está em curso. As últimas movimentações (greve de apps, resistência indígena, luta de ambulantes, ocupação e greves no Pará, 1º de maio, greves do serviço público, lutas nas favelas, ocupações de terra e de moradia, etc.) tem cada vez uma participação maior de organizações locais, informais, novas, inexperientes e independentes. Boa parte dessas lutas “espontâneas” tem uma grande dificuldade de nacionalização e, principalmente, dificuldade de formação de uma nova vanguarda com um grau de consciência estratégica e programática mais ampla, ou seja, de um Projeto Político, para além dos limites do pragmatismo, imediatismo e corporativismo. Assim, essas lideranças populares locais, por mais autônomas que sejam, ao não avançarem num sentido revolucionário acabam retrocedendo e sendo cooptadas pelos Projetos burgueses do lulismo, bolsonarismo ou “terceiras vias” à direita e à esquerda.
Assim, a principal importância da crise do lulismo não é abrir a possibilidade de disputar “à esquerda” as suas velhas burocracias. Essa é a expectativa errada da maioria da esquerda reformista “radical” que vive na cauda do PT. Para nós, social-revolucionários, a crise do lulismo debilitará (ou mesmo implodirá) o maior instrumento de controle da classe trabalhadora brasileira desde a redemocratização, gerando um contexto político favorável às novas movimentações e a reorganização das massas populares. Afrouxar a camisa de forças do petismo poderá favorecer as forças renovadoras das lutas e organizações populares. Mais do que um juízo de valor, é um fato. Certamente existirão tendências à direita que irão disputar esse processo, mas cabe à nós, ao invés de “lamentar pelos mortos”, ou pior, “ressuscitá-los”, destruir a sua nefasta influência burocrática, eleitoreira e oportunista sobre o movimento de massas, contribuindo com uma profunda reorganização e reorientação das lutas do nosso povo. Ainda que os militantes oriundos da esquerda tradicional possam ser incorporados, a principal tarefa dos revolucionários é ir ao povo e se dedicar arduamente na formação de novos militantes e organizações de massas, assim como, dentro do movimento sindical-popular fazer oposição às burocracias da CUT e CTB e apresentar uma alternativa classista e combativa.
Esse processo de crise política e organizativa levará a um período transitório de caos e disputa generalizada de referências, à direita e à esquerda. É preciso assumir a necessidade desse período transitório. Quanto mais tempo as organizações de massas e de vanguarda se mantiverem na cauda do petismo, optando pela velha estabilidade e com temor às tempestades da mudança, mais se prolongará a crise e mais a crise impactará as demais organizações e vanguardas populares independentes. O lento crescimento das organizações independentes que podem impulsionar e disputar a reorganização das massas é também outro fator que poderá prolongar a crise, inclusive pender a disputa à direita, por isso a formação urgente de novos militantes e lideranças classistas é tão fundamental. Outro fato é a unidade dos revolucionários a nível nacional.
Assumir a responsabilidade histórica, abdicando da autoproclamação e fórmulas prontas e doutrinárias, deve levar num curto-médio prazo a aproximação, aliança e mesmo fusão/incorporação entre os pequenos grupos revolucionários, superando divergências e desentendimentos menores (doutrinários, pessoais, sectários, etc.) e expandindo a capacidade de intervenção diante das necessidades concretas. O período de fragmentação das esquerdas (2016-2024) diante dos impasses conjunturais e das suas próprias contradições internas, deve ser sucedido pela busca da reunificação das forças socialistas revolucionárias, a partir de um balanço autocrítico e da resolução de suas contradições internas e de sua linha política e de massas. Só assim poderemos estar à altura dos acontecimentos e colaborar efetivamente para uma reorganização classista e combativa das massas populares no Brasil.
Por isso, as tarefas no curto-médio prazo de uma política popular revolucionária se sintetizam na etapa estratégica “Ir ao povo”, ou seja, através do método materialista de mobilização, agir sobre as condições concretas, impulsionando as reivindicações materiais do povo, através da agitação, propaganda e organização. Mas isso por si só não basta, é parte dessa etapa estratégica combinar o impulsionamento das lutas e organizações de massas com uma intensa luta ideológica dirigida às vanguardas, com o objetivo de aproximar/unificar as vanguardas militantes e combativas já existentes e, por outro lado, retirar as lideranças populares “espontâneas” da influência da política eleitoral-burguesa e do reformismo, trazê-las para uma política classista e revolucionária, para outro nível de consciência, responsabilidade e organização como revolucionários brasileiros.
4.2 – A farsa eleitoral de 2026: balanço da tática abstencionista e nossas orientações políticas
Assim, apesar das eleições de 2026 indicarem a vitória de Lula, a crise do PT é um fato apenas postergável em alguns anos, e se somará à crise da democracia burguesa no Brasil. Essa é a principal tendência da conjuntura política, como já pontuamos anteriormente. Por outro lado, os cálculos eleitorais para o Congresso, as mobilizações eleitoreiras de rua, as “renovações de votos” contra o “fascismo” (sic) e em apoio aos “menos piores” no 2º turno são as faces de uma pequena política de uma esquerda aburguesada, moribunda e funcional ao Sistema, rejeitada pelas massas populares e em crise. Diante dessa crise política, não é interesse tático dos socialistas revolucionários, muito menos estratégico, colaborar ou disputar a farsa eleitoral em 2026. Precisamos enfrentar esse debate nos nossos locais de trabalho e de moradia, em defesa de um novo projeto político e estratégico de libertação das massas populares no Brasil.
A crítica a farsa eleitoral, à polarização eleitoral burguesa e à estratégia reformista se mantém como elementos estratégicos da análise política e luta ideológica do GLP. Mas dessa análise tiramos conclusões para a ação militante a nível de movimento de massas focadas em dois eixos: 1) Pela independência das organizações populares e sindicais em relação às disputas e candidaturas para as eleições burguesas; 2) Contra o voto de cabresto e o assédio eleitoral de patrões, chefes e políticos contra os trabalhadores, especialmente sobre os mais precarizados e marginalizados. Essa linha deverá ser defendida nas organizações e categorias que atuamos, em escala local e nacional, especialmente no próximo Congresso da CSP-Conlutas que ocorrerá em abril de 2026.
Por fim, fazemos aqui uma autocrítica das campanhas de conscientização popular para o “voto nulo” ou “abstenção” desenvolvidas por muitos de nós e demais setores combativos no último período. Muita energia foi gasta nessas campanhas, mas elas se demonstraram pouco capacitadas (na sua forma e no conteúdo) a contribuir concretamente com o avanço da consciência e organização popular, restringindo-se à reunião principista e ultra-ideológica de jovens libertários de camadas médias urbanas, com uma simpatia popular passiva e sem conseguir ligar tais campanhas aos interesses e lutas concretas do nosso povo. Isso não significa que a tática do boicote eleitoral não é válida, significa apenas que no atual contexto e para 2026 não será a tática que adotaremos. Canalizaremos a nossa energia de outra forma. Os índices de “boicote eleitoral” já são altíssimos, a crítica às eleições e políticos é senso comum no povo, mas tudo isso não significará nada sem acumular para a luta e organização. Assim, a nossa intervenção política frente à farsa eleitoral em 2026, de crítica à polarização burguesa entre Lulismo e Bolsonarismo, em defesa da independência de classe das organizações sindicais-populares, de denúncia contra o voto de cabresto e assédio eleitoral contra o proletariado marginal, estará baseada nesse balanço autocrítico, assentada assim mais na análise concreta e nas tarefas da luta classista do que em principismos e moralismos sobre o “voto” em si.
5 – Resoluções sobre Organização e Frente de Massas
A construção de “curto, médio e longo prazo” não é um slogan vazio. Significa que existem etapas históricas de construção organizativa interna. Exige o que podemos chamar de uma estratégia organizacional que guie as táticas e os métodos em cada uma das etapas. É a planificação do “pra onde ir e o que fazer”, que, certamente exigirá aprofundamentos, correções e ajustes ao longo da caminhada, em permanente diálogo com a conjuntura, mas exige um primeiro passo de linha política e teorização.
A nossa estratégia organizacional interna deve estar em consonância com os princípios, concepções e objetivos do Grupo. Como uma tendência militante de vanguarda, que atua no interior das lutas e movimentos populares defendendo uma orientação classista e revolucionária, nosso objetivo maior é a construção da revolução brasileira por meio da ação direta e organização das massas proletárias e camponesas (sustentada em seus setores estratégicos) e guiada por um Programa que expresse e canalize os anseios emancipatórios do nosso povo de caráter socialista, anti-imperialista e autogestionário.
A estratégia revolucionária pressupõe, por um lado, a destruição violenta do sistema capitalista brasileiro e todas as suas instituições. Significa a criação dos meios necessários para o enfrentamento e a vitória sobre a grande burguesia, as forças armadas e o imperialismo. No curto-médio prazo isso exigirá também uma luta político-ideológica contra burocracias sindicais e partidárias que atuam como forças auxiliares da ordem. Por outro lado, nossa estratégia indica trabalhar desde já pela inserção militante nos setores estratégicos das massas, capaz de apontar nos momentos de radicalização da luta de classes uma alternativa revolucionária e sustentar na prática a reorganização social amparada no poder popular (autogestão) das massas proletárias e camponesas, contra as tendências conciliadoras ou reacionárias.
Pequenos ou grandes, os desafios de cada etapa da luta de classes não se vencem com palavras ou boas intenções, se vence com força coletiva e uma direção correta. É isso que persegue uma estratégia organizacional interna. Ou entendemos isso ou ficaremos eternamente na infância da luta política (“pequena política”), girando em círculos entre a integração sistêmica (nos adaptando aos velhos e novos reformistas) e a desintegração cíclica (dos grupos radicais, libertários e autonomistas). Por isso a importância de romper com dogmatismos ideológicos e de seita que impedem a construção dessa força coletiva e direção correta. Os dogmatismos atrapalham o desenvolvimento da organização interna e da atuação externa, isso está comprovado pela experiência das últimas décadas.
Nos espelhamos e aprendemos com a larga tradição popular e revolucionária no mundo. No entanto, rejeitamos o dogmatismo, inclusive organizacional, de modelos e cartilhas pré-fabricadas. “Ir ao povo” significa para nós o pensamento profundo de que as formas originais de Organização, Estratégia e Programa que assumirão a Revolução Brasileira não podem ser copiados, devem ser encontrados no seio do povo e da realidade brasileira, extraídos de suas lutas e dores do passado e do presente, sem nunca dispensar as mais avançadas descobertas teóricas e técnicas de nosso tempo, o que equivaleria a cair em outro dogmatismo (nacionalista). Servir à libertação do nosso povo é a nossa “régua” do certo e errado, é a partir dela que nos vinculamos à luta emancipatória de todos os explorados e oprimidos do mundo.
5.1 – Etapas internas de Organização e Frentes: De onde viemos e para onde vamos?
Nos trabalhos dessa Plenária do GLP partimos do pressuposto que devemos “revolucionar a nós mesmos para revolucionar o Brasil”, parafraseando um documento do MIR (Chile). Isso significa em primeiro lugar que o tipo de organização (perfil militante, cargos, métodos decisórios, instâncias, etc.), ainda que mantenha determinados princípios e coerência, deve necessariamente passar por mudanças que respondam ao avanço organizativo interno em termos de qualidade-quantidade e em relação às exigências luta de classes. O objetivo é que as mudanças operadas internamente possam garantir um desenvolvimento harmônico global, ou seja, a superação de uma etapa organizativa que se tornou obsoleta para uma nova etapa organizativa superior e que garanta certa estabilidade interna para seguir avançando e se desenvolvendo.
Em segundo lugar isso exige uma nova atitude dos militantes: o desapego, o espírito de crítica/autocrítica, a paciência. O militante deve saber que a organização tal como a conhecemos hoje não o será amanhã, e, por outro lado, a forma que ela assume hoje não é melhor nem pior que assumirá amanhã, apenas corresponde às necessidades concretas de um dado momento. Ou seja, não adianta fetichizar ou se apegar a uma forma organizativa como “pronta e acabada”, nem adianta querer saltar prematuramente etapas organizativas. Em cada uma delas há pontos positivos e negativos que devem ser encarados e superados de forma materialista e dialética. Por isso devemos saber quem nós somos, nossas fraquezas e virtudes, sem superdimensioná-las. Como diria Sun Tzu há 500 A.C.: “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas.”. Nós queremos vencer nossas batalhas, e em cada etapa são batalhas diferentes a vencer.
O Planejamento Estratégico Organizacional do GLP foi debatido e aprovado na Plenária. Como parte desse planejamento, e parte da primeira etapa dele, também aprovamos um Estatuto interno. Abaixo seguem os títulos e prazos simplificados das 4 Etapas organizacionais, sem a necessidade de expor no presente documento as características, objetivos e as mudanças organizativas internas debatidas e aprovadas em cada uma delas:
- 1 – Etapa de estancamento e reorganização (prazo: 2 anos – 2027);
- 2 – Etapa de expansão nacional e crescimento local (prazo: 5 anos – 2030);
- 3 – Etapa de profissionalização e consolidação nacional (prazo de 10 anos – 2035);
- 4 – Etapa de unidade proletária e ginástica revolucionária (prazo de 15 anos – 2040).
Um planejamento organizacional é fundamental, é um horizonte, mas não é uma linha reta. Sabemos que a realidade é mais complexa, conflitiva, com fluxos e refluxos. Tarefas de uma etapa podem ser adiantadas, assim como tarefas de uma etapa podem ser postergadas ou revistas. Haverão disparidades geográficas entre locais e regiões. Haverão disparidades políticas no desenvolvimento das frentes, etc. O militante deve exercitar a paciência e a consciência do processo. Caberá a nós o esforço o mais científico e profissional possível para harmonizar as partes numa prática militante unitária, forte e eficaz. Nossa vitória depende disso.
5.2 – Frente de massas: luta contra a burocracia sindical e inserção nos setores estratégicos
Para a realização de todas essas tarefas a nossa Organização irá reforçar a militância da Frente de Massas: através da construção e fortalecimento de oposições e coletivos sindicais (através da nossa frente sindical Domingos Passos) e da inserção comunitária e na luta popular, visando a construção de uma retaguarda de apoio à política revolucionária nos bairros pobres e áreas rurais (através da frente popular Zumbi dos Palmares). Em todas as frentes, sindical e popular, a prioridade é a análise e foco de atuação junto aos setores estratégicos do proletariado.
No curto prazo não é nosso foco a construção de uma frente estudantil, dado o caráter de degeneração eleitoreira, elitismo e imobilismo no movimento estudantil, especialmente universitário, ponta de lança da política burguesa do Lulismo. Os estudantes do povo e a juventude revolucionária do Brasil são fundamentais na luta e poderão ingressar no GLP, mas devem atuar no curto prazo como forças de apoio às lutas sindicais e populares, em especial dos seus setores estratégicos, ou seja, devem ir ao povo. Um novo contexto poderá ser propenso a construção de uma frente de estudantes do povo e da juventude revolucionária.
A política de agitação, propaganda e luta ideológica do Grupo Libertação Popular se dará nacionalmente pelo fortalecimento do jornal O Amigo do Povo, pela revitalização do trabalho de edição de livros e por campanhas independentes ou em conjunto com outras organizações. Além disso, a construção de células de apoio ao jornal será uma política de expansão da propaganda, das alianças e da própria Organização. Localmente, os núcleos e frentes sindical e popular poderão criar panfletos, boletins e campanhas próprias desde que em unidade com a política da Organização como um todo.
Associado a política das Frentes, o GLP desenvolverá um plano de estudos em cada Núcleo chamado “Estudos Estratégicos” envolvendo os aspectos estratégicos da realidade da luta de classe a nível local: a estrutura de classes do município; principais setores do capital; Estado, governo e forças armadas; formas associativas do trabalho e do capital; tradições e cultura popular; religião e igreja evangélicas. Esses estudos, a serem realizados e constantemente atualizados e aprimorados nos próximos anos, darão origem à Relatórios e Planejamentos locais de intervenção nos setores estratégicos da classe trabalhadora.
Para a etapa atual de construção interna, também desenvolveremos uma política de “Ensaios de luta e organização nos setores estratégicos”, que envolverão: registro, balanço e replicação de experiências; aprendizado e sistematização de experiências já exitosas; pontos positivos e negativos; aprofundar a “estratégia de guerra de classes”, entre outros aspectos. O objetivo é, por um lado, sistematizar conhecimentos historicamente acumulados, e por outro, não chegar com modelos prontos, inaplicáveis e dogmáticos, mas ir ao povo com a cabeça aberta. Essa política de “Ensaios” está associada à nossa crítica ao dogmatismo, tanto programático quanto organizacional.
A tarefa prioritária no atual momento de refluxo e defensiva do proletariado não é criar artificialmente formas de organização supostamente “perfeitas”, mas formar e ingressar trabalhadores de vanguarda que possam influir positivamente nas lutas e formas organizativas realmente existentes, sejam elas associações de bairro, coletivos, oposições sindicais, direções sindicatos, movimentos, etc. disputando a consciência e os rumos dessas organizações ajudando o povo a elevá-las a outro patamar organizativo e direção classista. Formar grupos e lideranças populares que vejam além das lutas imediatas, capazes de entender e ligar essas lutas específicas com as tarefas mais amplas da classe trabalhadora brasileira. Isso exige a conjugação de um método não sectário de trabalho de base, que defenda com paciência, mas sem capitulação, os nossos princípios, e mantenha a nossa autonomia política como agrupamento de vanguarda.
Como linha política nacional da frente de massas, devemos reforçar a oposição classista ao governo burguês de Lula-Alckmin e às suas narrativas de autolegitimação com base na “democracia” e na “soberania nacional”. Toda política independente do proletariado só pode surgir da luta ideológica ferrenha contra o oportunismo Lulista no poder. Chover no molhado da desmoralização do entreguismo bolsonarista é desviar o foco do elemento central da luta de classes, fazer o jogo de quem está no poder central do país e no poder das principais organizações sindicais e populares. A política popular revolucionária não age como torcida ou lobby parlamentar de disputas no interior do Estado burguês. Isso significaria colocar-se à reboque da política burguesa, tal como as pressões sobre a “taxa de juros”, ou sobre o “congresso”, os “super ricos”, através da farsa de um plebiscito natimorto.
A política popular revolucionária possui métodos, estratégia e programa distinto do Oportunismo e do Reformismo. Recusa o papel de conselheiro da política governamental para salvar os governos e as classes dominantes da crise política ou econômica. Os militantes classistas não temem as crises, ao contrário, a política revolucionária é impulsionar a ação direta proletária, desde baixo, no sentido de aprofundar as crises nacionais e internacionais do capital e transformá-las em crises revolucionárias. Não é tarefa dos revolucionários buscar a estabilidade do sistema. Quem luta pela revolução não teme as tempestades.
Diante da situação internacional, é importante também retomar as teses revolucionárias sobre a questão anti-imperialista e defende-la através da nossa Frente de Massas. Aplicar isso ao contexto da guerra comercial que afetou o Brasil, essencialmente uma disputa interburguesa de mercados, e ao acirramento das disputas interimperialistas no mundo. A política popular revolucionária não é seguir a agenda burguesa da moda, é agir sobre as contradições das disputas interburguesas (carestia, desemprego, etc.) afim de impulsionar a ação direta de massas pelas legítimas reivindicações do proletariado, contra o seu próprio governo e as classes dominantes. Se a revolução ocorre inicialmente em marcos nacionais, os primeiros inimigos da revolução são as classes dominantes internas. Isso significa, frente aos efeitos da guerra comercial e disputas interburguesas, levantar as bandeiras autenticamente classistas: “Contra as demissões, carestia de alimentos e retirada de direitos!”; “Redução da jornada de trabalho, aumento de salários e direitos!”; “Redistribuição das terras aos trabalhadores e camponeses! Morte ao latifúndio!”; “Os trabalhadores não pagarão pela crise!”; “Abaixo a colaboração das centrais pelegas com o governo e o capital!”.
A nível nacional debatemos e aprovamos a participação e disputa do GLP na Central Sindical e Popular – Conlutas (CSP-Conlutas), única Central com independência do governo Lula-Alckmin, aberta aos movimentos populares do campo e da cidade, que tem apoiado as lutas e feito oposição às burocracias sindicais da CUT e CTB. Apesar disso, a nossa participação está orientada por uma política de oposição interna à estratégia reformista do PSTU e setores do PSOL (atualmente na direção da entidade), e, especialmente, de alianças e redes de apoio com demais grupos, movimentos e lideranças classistas e combativas do movimento sindical e popular, tendo como objetivo a conformação de um bloco classista e combativo. Vamos atuar no próximo Congresso da CSP-Conlutas (18 a 21 de abril de 2026, em São Paulo), convocando também outras organizações e militantes aliados e próximos. A nossa política para a CSP-Conlutas será exposta em material específica para esse fim (Comunicado nº6 do GLP).
5.3 – O apoio mútuo como fundamento estratégico para a organização das massas populares
Vivemos tempos de miséria estrutural aprofundada. A ofensiva neoliberal — por meio do desmonte dos direitos sociais, da carestia, do desemprego, do avanço da informalidade e da precarização — empurra milhões ao desespero da sobrevivência. As massas populares, desorganizadas e órfãs de instrumentos próprios de luta, têm buscado saídas fragmentadas: nas igrejas evangélicas, nas ONGs, nos aparelhos de assistência mínima do Estado ou nas promessas eleitorais vazias dos partidos da ordem.
Esse processo não é espontâneo. Ele revela o vazio deixado pela ausência de projetos organizativos populares enraizados na realidade concreta do povo pobre. A igreja cresce não porque evangeliza, mas porque distribui arroz, acolhe com escuta, indica emprego. Ela cumpre uma função social abandonada pelas forças populares. O que está em disputa, portanto, não é apenas a fé, mas a sobrevivência.
Historicamente, as lutas do povo não começaram nos palanques nem nas urnas, mas nas cooperativas, nas creches operárias, nas escolas autogestionadas, nas greves sustentadas por caixas de solidariedade. Inspiradas nas ideias mutualistas de Proudhon e nas práticas concretas do movimento operário do século XIX, as massas construíram, com suas próprias mãos, redes de apoio mútuo que garantiram resistência material, formação política e cultura de luta.
Essas práticas de base obrigaram o próprio Estado burguês a instituir aparatos de seguridade para frear o avanço da autonomia popular. Hoje, porém, com o desmonte do Estado de bem-estar social, temos novamente um terreno fértil para reconstruir, desde baixo, estruturas autônomas de apoio e luta.
A Plenária aprovou que todas as Frentes de Massa de nossa organização devem incorporar o apoio mútuo como política estratégica de enraizamento e mobilização das categorias precarizadas. Não se trata de assistencialismo, mas de uma ação direta e da construção coletiva, capaz de forjar novos vínculos políticos, despertar a consciência de classe e dar base material à organização popular.
As redes de apoio devem combinar a solidariedade concreta (alimentos, saúde mental, educação infantil, geração de renda, espaços culturais, orientação jurídica) com a luta reivindicativa combativa e independente. Ajudar um trabalhador desempregado não pode ser fim em si mesmo: deve ser o ponto de partida para a organização da sua raiva, da sua revolta, da sua potência coletiva.
5.3.1 – Plano de ação político-organizativo para o apoio mútuo
a) Nas periferias e bairros populares:
- Construir redes de apoio mútuo por território, com base nos vínculos já existentes (cozinhas coletivas, creches comunitárias, hortas urbanas, espaços culturais, cooperativas, círculos de escuta).
- Formar núcleos de ação direta e solidariedade com participação ativa dos moradores.
- Garantir que as ações não sejam “ajuda de fora”, mas construídas junto com o povo, ouvindo suas demandas e respeitando seus tempos.
- Construir as Casas do Povo! As frentes devem mapear possíveis espaços físicos para criação de centros autônomos de apoio mutuo e formação popular no próximo período.
b) Nas categorias precarizadas (trabalhadores informais, ambulantes, entregadores, desempregados):
- Criar redes solidárias por categoria que ofereçam auxílio material imediato (alimentação, transporte, apoio jurídico e psicológico), mas com foco na organização política autônoma da categoria
- Utilizar o apoio mútuo como porta de entrada para a formação de comitês de luta e núcleos de base, capazes de impulsionar greves, ocupações e reivindicações coletivas.
- Estimular a criação de cooperativas autogestionadas como alternativa à exploração.
c) Na cultura política da militância:
- Romper com o dogmatismo acadêmico e o eleitoralismo estéril. É preciso ir ao povo!
- Retomar ação direta como método de formação: o povo aprende lutando!
- Formação de uma Escola de Militância para o Apoio Mútuo, com foco em técnicas de autogestão, comunicação popular, mobilização direta e educação política.
A construção de redes autônomas de apoio nos moldes zapatistas no México ou das ocupações anarquistas na Grécia é prova de que a autonomia popular é possível. Aqui, no Brasil, é hora de reconstituir o tecido da organização de base com o rosto e a linguagem das massas populares brasileiras, sem subordinação ao lulismo, ao bolsonarismo ou a qualquer projeto de conciliação com o capital.
É necessário disputar o espaço deixado pela crise do Estado e pelo avanço das igrejas e ONGs, não com discurso, mas com ação direta solidária, independência de classe e reivindicação combativa. Só assim poderemos reconstruir o poder popular desde a base.
Como parte da política de “Ensaios de luta e organização nos setores estratégicos” todas as experiências de apoio mútuo serão sistematizadas em boletins políticos e apresentadas no próximo encontro nacional, sendo que deverão ser incorporadas por todos os núcleos nos próximos três meses, através de “redes piloto de apoio mútuo” em ao menos uma categoria ou frente na localidade.
5.4 – Por um estilo de militância popular enraizado na experiência histórica das massas
As organizações revolucionárias populares, em sua maioria, caem em um vício comum: a reprodução de um estilo de propaganda ideológica, doutrinária e, muitas vezes, autorreferente — voltada apenas a setores muito específicos da pequena-burguesia universitária e urbana, como estudantes de universidades federais, funcionários públicos ou jovens das metrópoles ligados a subculturas alternativas.
Esse estilo de militância se expressa em disputas teóricas sectárias (Stalin vs Trotsky, ou qual marxismo é mais “puro”), ou mesmo em formas elitistas de propaganda, como o academicismo das correntes marxistas universitárias ou o comportamentalismo individualista de tendências anarquistas de estilo de vida. Isso tudo está muito longe da realidade vivida pela maioria do povo brasileiro, que ganha até dois salários mínimos, realiza trabalho braçal, vive sob intensa exclusão educacional e sofre os efeitos diretos da violência capitalista cotidiana.
Como dizia Bakunin, o povo não é uma “folha em branco”. O povo carrega em si uma memória de lutas e formas difusas de resistência. Mesmo sob intensa dominação ideológica e desorganização, há dentro das massas trabalhadoras uma experiência real que deve ser ponto de partida da militância revolucionária. Isso exige um método materialista de mobilização, que leve em conta a realidade concreta, os valores presentes nas frações sociais específicas, seus desejos, formas de sociabilidade e as contradições presentes em sua consciência. É na luta por reivindicações concretas, e não em doutrinações abstratas, que a consciência de classe começa a emergir de forma organizada.
O método materialista exige também conhecimento profundo da base social onde se atua. Cada frente de massas precisa entender quem é o povo real — suas crenças, seus costumes, sua linguagem, seus afetos e seus limites de consciência. Isso se faz com escuta, convivência e respeito, não com panfletagem vazia ou slogans prontos. Podemos chamar isso de uma etnografia revolucionária, um trabalho que combina inserção real na classe com estudo sistemático de seus modos de vida e pensamento. Esse conhecimento permite construir formas de propaganda e mobilização que tenham a cara e o jeito do povo brasileiro, e não apenas da vanguarda militante.
Por fim, é necessário combater tanto o sectarismo doutrinário quanto o espontaneísmo. A pluralidade socialista deve ser respeitada desde que mantenha fidelidade à centralidade da luta de classes e à construção do poder popular. Isso exige análises de conjuntura sérias, rigorosas, capazes de entender as particularidades de cada momento histórico, sem cair no economicismo, no subjetivismo ou no fatalismo.
A tarefa revolucionária no Brasil exige abandonar os vícios da propaganda ideológica fechada, e adotar um método materialista vivo, popular, combativo e consciente das contradições reais do povo. Com base na experiência histórica coletiva, na luta concreta e no conhecimento profundo das massas, é possível organizar, elevar e unificar o povo brasileiro rumo a um novo horizonte de poder popular e emancipação socialista.
6 – Resolução sobre política de alianças
Na luta política e social nós não estamos sós, estamos com nossa classe e com uma variedade de outras organizações. A luta, portanto, sempre envolve união e alianças em algum nível. Por isso, no interesse de avançar em nossa política popular revolucionária, é importante saber analisar os diferentes contextos e como estes se vinculam em termos de proximidade com a nossa política, afim de evitar o sectarismo ou a assimilação. Para isso nós identificamos três níveis de unidade, diferentes, mas profundamente relacionados entre si:
- Unidade de ação: Ocorre nas lutas de massas por reivindicações materiais. Em uma greve, um protesto, uma ação de apoio mútuo, uma ocupação, em sindicatos e movimentos populares, lutamos lado a lado de pessoas de diferentes ideologias e partidos, tendo como ponto de unidade a conquista de um interesse material comum da categoria ou da classe num dado contexto. É o nível mais básico e fundamental, porém, pela sua amplitude, pode abarcar profundas contradições e até antagonismos (com as burocracias governistas, por exemplo), exigindo a luta política e ideológica dos revolucionários tanto para propor soluções quanto para combater as ilusões e traições no seio dos movimentos.
- Aliança tática: Ocorre com a formação de “blocos” ou “frentes” entre indivíduos e grupos no interior dos movimentos de massa. Por possuírem interesses e concepções táticas comuns, num dado contexto, se unem para avançar na luta e na organização de uma categoria ou da classe. São as oposições sindicais unificadas, blocos combativos em protestos, frentes para campanhas temporárias ou mesmo instâncias nacionais como a CSP-Conlutas. O objetivo das alianças táticas é claro: impulsionar a reorganização do movimento de massas com independência de classe, democracia de base e ação direta. As alianças nesse nível devem ser periodicamente reexaminadas. Possuem um grau menor de contradições internas do que as unidades de ação, mas podendo reunir reformistas ou vacilantes, exigindo a disputa interna dos revolucionários.
- Aliança estratégica: Ocorre com as redes mais ou menos estabelecidas entre militantes e organizações socialistas revolucionárias, ou seja, que possuem um grau superior de identidade em termos de projeto estratégico, de análises da realidade, de princípios e práticas militantes. Por diferentes razões esses militantes não estão unificados em Uma Só Organização, sendo esse nível de aliança fundamental para estreitar laços, fortalecer projetos, conhecer análises, reconhecendo diferenças, mas valorizando acima de tudo as confluências. O objetivo nesse nível é a reorganização de um projeto estratégico socialista revolucionário no Brasil. A base para sedimentar as alianças estratégicas é o movimento de massas, é a prática revolucionária, é a ação militante classista e combativa nos níveis anteriores, sem a qual tal aliança cairia na abstração doutrinária da mera “identidade de ideias”.






