Publicado no Jornal O Amigo do Povo, nº16, Março/Abril/Maio de 2026.
Maradona.

Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), conhecido como Tiradentes, lutou pela emancipação da capitania de Minas Gerais, sendo parte fundamental do ciclo histórico de lutas emancipacionistas na América Portuguesa do final do século XVIII. Tido como um inconfidente, ou seja, um traidor, Tiradentes foi “resgatado” pelo republicanismo ao final do século XIX e elevado a líder nacional durante a república brasileira, inclusive pela Ditadura Militar, evidenciando a disputa ideológica e memorial sobre sua figura legendária.
O lider circulava entre diversos setores da sociedade por meio de sua primeira profissão, dentista (daí a alcunha “Tiradentes”). Ao contrário do que popularmente se acredita, não era um sujeito pobre, sendo sua família proprietária de terras com boas condições financeiras. De dentista, tornou-se tropeiro, realizando viagens pelo Brasil, o que aguçou seu olhar para o país. Foi aceito no serviço militar em 1775, durante o qual, atuou na mineração.
Influenciado pelo republicanismo norte-americano (até então revolucionário, ainda que limitado), sua perspectiva para o desenvolvimento regional e independência é clara, como nos evidencia Kenneth Maxwell (1973): “elogiava a beleza de Minas e apontava seus recursos naturais como os melhores do mundo […]. Livre e republicano, como a América inglesa, o Brasil poderia ser ainda maior, dizia ele, por ser melhor dotado pela natureza. Criando-se indústrias […] não haveria necessidade de importar mercadorias estrangeiras”. Segundo Tiradentes, a razão da pobreza do país, apesar de todas as suas riquezas era “só porque a Europa, como uma esponja, lhe estivesse chupando toda a substancia, e os Exmos. Generaes de tres em tres annos traziam uma quadrilha, a que chamavam creados, que depois de comerem a honra, a fazenda, e os officios, que deviam ser dos habitantes, se iam rindo delles para Portugal”.
A resposta de Portugal foi implacável: contando com a delação premiada de Joaquim Silvério dos Reis, Tiradentes foi enforcado e esquartejado, tendo seus membros espalhados por Minas Gerais. Mas morreu com convicção, sem renunciar à Conjuração Mineira. Não cabe a nós, aqui, analisar sua representação histórica, mesmo sabendo de sua “cristianização”. Nosso ponto principal é: como Tiradentes pode ser visto, mais de dois séculos depois, como um exemplo de luta e transformação social?
Temos dois exemplos interessantes. Francisco Julião, influenciado pela Revolução Cubana, lançou no dia 21 de abril de 1962, em Ouro Preto (MG), o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), com o propósito de alinhar as Ligas Camponesas com grupos de esquerda. Em que pesem as críticas à Julião e Clodomir Morais como lideranças do movimento e das guerrilhas camponesas, podemos não só extrair daí elementos para a reflexão sobre o movimento socialista atual, mas principalmente valorizar a tentativa de revitalizar lideranças populares nacionais e de penetrar no interior brasileiro, no Brasil profundo. Nos anos 1969-1971 foi criado o segundo MRT, que continha integrantes do primeiro grupo vinculado às Ligas. Uma afirmação de Julião, quando perguntado sobre se “sua linha” era Moscou, Pequim ou Havana, nos traz uma reflexão sobre a necessidade da “linha brasileira” de nossa revolução: ele afirmou “sou linha Sapé” (MORAES, 2011).
Portanto, resgatar Tiradentes não é afirmar a república atual, mas sim reafirmar que ainda somos colonizados, não alcançamos nossa independência enquanto povo e que, portanto, através dos exemplos históricos de nosso país, seguiremos na luta para honrá-los, desenvolver e aprimorar seus projetos para a coletividade brasileira. Resgatemos Tiradentes como mártir da luta pela liberdade, em uma república que não se concretizou enquanto tal, transformando propositalmente sua luta republicana, coletivista, que hoje só pode ser socialista, patriótica e revolucionária.
Como afirmou Machado de Assis (1865) sobre Joaquim José da Silva Xavier: “os deuses podem aprazer-se com as causas vencedoras: aos olhos do povo, a vitória não deve ser o criterium da homenagem”. ■






