Publicado no Jornal O Amigo do Povo, nº16, Março/Abril/Maio de 2026.
J. C. Ramos

As esquerdas da América Latina iniciaram 2026 escancarando o esgotamento histórico das estratégias reformistas diante da reconfiguração agressiva do imperialismo estadunidense. O caso venezuelano não representa uma exceção trágica, mas a forma mais acabada de uma derrota administrada a longo prazo, onde um governo que dispunha de aparato militar significativo — 123 mil militares ativos, navios, tanques e caças, além de milícias populares organizadas com cerca de 200 mil membros — e de uma base social mobilizável optou conscientemente pela inércia militar e pela capitulação politica negociada.
A retomada das relações diplomáticas entre Caracas e Washington, imediatamente acompanhada da entrega de dezenas de milhões de barris de petróleo, da presença de delegações norte-americanas em território venezuelano e de uma reforma legislativa apressada para adequar o ordenamento jurídico às demandas neoliberais, materializa uma subordinação total — uma subordinação não observada sequer em contextos de extrema assimetria militar, como a resistência palestina diante da máquina de guerra israelense ou a precária guerrilha afegã que derrotou a besta imperialista chamada Estados Unidos. Na Venezuela, não se tratou de uma derrota militar, mas do último ato de uma derrota política que vem se arrastando.
Essa capitulação não decorre de um suposto “realismo” diante da correlação de forças, mas de uma opção política consciente pela não resistência, que teve como consequência imediata a contenção das massas. O chavismo, longe de ser um bloco homogêneo, passou a operar como mediador legítimo de uma transição tutelada através da maioria de seus dirigentes, canalizando a energia popular não para a resistência à intervenção imperialista, mas para a manutenção da governabilidade necessária à pilhagem imperialista dos recursos estratégicos do país. Dessa forma, partido, aparato estatal e base social subordinada converteram-se em instrumentos de estabilização da nova ordem imperial, assegurando que a derrota se desse sob a aparência de uma transição forçada, porém rigidamente controlada pelo chavismo no plano institucional, controle este que não existe.
Nesse processo, a chamada “solidariedade latino-americana”, promovida por governos progressistas como os de Lula e Gustavo Petro, revelou-se inteiramente funcional à capitulação. Longe de romper relações diplomáticas, impor sanções regionais ou criar mecanismos alternativos para o escoamento do petróleo venezuelano, esses governos atuaram como agentes de mediação da rendição, pressionando Caracas por concessões políticas apressadas. Trata-se de uma solidariedade performática, moldada pelo calendário eleitoral, pelo temor de sanções econômicas e pela submissão estrutural à democracia burguesa — especialmente em um ano marcado por cinco processos eleitorais, entre eles os do Brasil e da Colômbia.
No plano internacional, a crise venezuelana também desmonta a ilusão de que alianças com potências como Rússia e China possam substituir a mobilização direta das massas. O silêncio e a inércia dessas potências, mesmo após a assinatura de amplos acordos econômicos e estratégicos com Caracas, em 2025, revelam a existência de um pacto tácito entre imperialismos, baseado na divisão de zonas de influência e na gestão negociada de conflitos globais. A Venezuela foi sacrificada nesse tabuleiro como preço de compensações geopolíticas, na Ucrânia e Taiwan, evidenciando que não há saída anti-imperialista possível por meio da diplomacia entre Estados capitalistas.
Por sua vez, a ofensiva estadunidense não expressa força ilimitada, mas uma tentativa de reorganização da hegemonia em meio ao declínio relativo do império. Os limites militares, econômicos e políticos dos Estados Unidos — marcados pelo desgaste das guerras no Oriente Médio, pela crise fiscal e pela oposição interna a novas ocupações — explicam a preferência por intervenções “perto de casa”.
Diante desse cenário, a primeira lição de 2026 é inequívoca: sem um projeto que não se submeta ao conceito clássico de revolução social — isto é, o fim da propriedade privada, a tomada dos meios de produção e a extinção das antigas classes dirigentes — estará condenado a repetir o destino do chavismo: não apenas como vítima trágica, ou pior, como gestor consciente de sua própria derrota e da derrota de seu povo. Sem isso, administração do Estado, mesmo sob governos de esquerda, converte-se inevitavelmente na administração da queda — Venezuela e a Bolívia são exemplos disso. ■






