Publicado no Jornal O Amigo do Povo, nº16, Março/Abril/Maio de 2026.
Antonio Galego.

A ocupação da Cargill em Santarém (PA) pelos povos indígenas durou 35 dias, se fortalecendo e se radicalizando a cada dia. A ação direta exigia a revogação do Decreto 12.600/25 que privatizava os rios Madeira, Tapajós e Tocantins. A luta se tornou o centro da conjuntura brasileira, colocando em xeque não apenas o programa burguês-imperialista em execução pelo governo Lula-Alckmin, mas também a farsa sobre a “eficácia” do caminho eleitoral-institucional e toda a retórica imobilista sobre a “falta de condições” para fazer a luta e conquistar vitórias para o povo.
Depois de tentar desmobilizar e derrotar a ocupação de diversas formas, o governo Lula cedeu à pressão e, no dia 23 de feveireiro, revogou o decreto que ele mesmo criou. Com a vitória da ocupação, os indígenas mostraram na prática um outro caminho de luta, já esquecido por alguns, ocultado por tantos outros: que a ação direta das massas populares é a mãe de todas as vitórias e o verdadeiro caminho de libertação, não as eleições burguesas.
A resistência indígena atingiu o âmago da crise brasileira: o imperialismo, o modelo agro-exportador, as privatizações, o sistema político apodrecido, as eleições de outubro, os projetos da esquerda e da direita. Partindo de uma reivindicação material e um método combativo de luta, atingiu o coração da besta.
Recentemente presenciamos uma série de debates e protestos no Brasil contra o imperialismo ianque na América Latina. A luta anti-imperialista aparecia aí como gesto simbólico de apoio a alguma realidade distante. Não negamos esses protestos. Mas as multinacionais imperialistas também estão no nosso país, roubando nossas terras, nossas águas e a explorando o nosso povo.
A Cargill e toda cadeia produtiva do agronegócio e da mineração é um grande exemplo disso. Mas também as multinacionais de entregas (Ifood, 99, Uber, etc.), e as grandes empresas que tem invadido o ramo logístico e de transportadoras como a Amazon, Total Express, Loggi, Mercado Livre, etc. Nesses e outros setores estratégicos da economia o projeto do governo Lula é de favorecimento dos ricos e bilionários em detrimento dos trabalhadores. É um projeto integrado de ataque aos direitos do povo, profundamente subordinado aos interesses imperialistas. Não é um “desvio” do projeto petista, é a sua expressão coerente. Administrar a dependência, não enfrentá-la.
Visto dessa forma, a ocupação na Cargill e as retomadas indígenas, os breques de apps e a greve nos Correios, para ficar nos exemplos citados, são lutas profundamente interligadas. Trinhcieras conectadas. Elas enfrentam os interesses da burguesia imperialista, apoiados pelo governo Lula. Mas não enfrentam com “notas de repúdio”, e sim com ação direta. A vitória dessas lutas representam golpes reais na estratégia imperialista no Brasil e na América Latina.
Porém, nesses contextos, os mesmos setores da esquerda lulista que bradam simbolicamente “contra o imperialismo”, agiram e agem como verdadeiros lacaios do mesmo. Sabotam, isolam e desmobilizam as lutas populares reais. Negam qualquer enfrentamento afim de preservar seus interesses eleitoreiros. É o que fazem PT, PCdoB, PSOL, CUT, CTB e UNE. É o que fez o ministro Guilherme Boulos (PSOL) com a ocupação da Cargill, com a luta dos entregadores (defendendo a PLP 152) e com a Favela do Moinho em São Paulo. Boulos é o exemplo mais acabado do projeto de “renovação da esquerda”, um projeto falido se for pelo mesmo caminho do oportunismo eleitoral do PT.
Mas nem todos os setores em luta estão no mesmo patamar de consciência e organização. Alguns foram derrotados. O movimento sindical, por exemplo, padece do câncer da burocratização e do peleguismo. É por isso que a vitória indígena, mais do que gerar uma admiração platônica, traz lições importantes para toda a clase trabalhadora: 1º) É uma luta material, de sobrevivência, com ganhos e perdas muito concretas para os envolvidos; 2º) Não conciliou com o inimigo, não aceitou migalhas ou enrolação, ao contrário, aprofundou e expandiu a radicalização; 3º) Manteve a independência frente ao governo e seus títeres (Boulos, Sônia Guajajara, líderes governistas e empresariais, etc.), sem se importar com cálculos eleitorais; 4º) Preservou e expandiu a unidade na luta, pela base, característica exemplar dos povos indígenas, mas que também já foi a marca de outros modelos de sindicalismo classista e organização popular.
Os lulistas tentaram extrair algum saldo eleitoral (a única coisa que se importam) com mentiras sobre o “papel do governo” na revogação do decreto (sic!). Nós devemos combater essa falsificação e propagar as verdadeiras lições da vitória indígena e de tantas lutas em curso, partes interligadas de um mesmo conflito estrutural que só tende a aumentar entre a Ofensiva Imperialista e a Resistência Popular.
O caminho da ação direta veio a tona mais uma vez, como um fantasma que ronda o Brasil, amedrontando os poderes dominantes e eletrizando as massas populares. É o caminho da vitória e da esperança verdadeira. É o caminho da tão almejada “consciência de classe”. Porque a luta é a maior escola do povo. Pela ação, os indígenas do Tapajós aprenderam e ensinaram mais do que mil panfletos e discursos. É a matéria prima básica para forjar uma nova política revolucionária e reorganizar as massas populares em nosso país. ■






