Publicado no Jornal O Amigo do Povo, nº16, Março/Abril/Maio de 2026.
Aurora.

Dia 17 de janeiro os países do Mercosul assinaram com a União Europeia um acordo comercial que vinha sendo costurado há 26 anos. Na prática consiste em uma drástica redução de tarifas de exportação, reduzindo-as em mais de 90%, dos produtos agrícolas/minerais do Mercosul para a União Europeia, o que tende a gerar um desabastecimento no países do Mercosul e o encarecimento desses produtos no mercado interno, e de produtos industrializados da União Europeia para os países do Mercosul, o que tende a quebrar a indústria nacional devido à dificuldade de competir com os produtos importados.
Os livros de Geografia há muitos anos justificam o “subdesenvolvimento” do Brasil baseando justamente nessa “balança comercial desfavorável”. O aprofundamento do modelo do capitalismo dependente, reforçando o caráter agroexportador do Brasil em meio a um processo que tende ainda mais a reprimarização de nossa economia, é consequência inerente a esse acordo comercial.
A comemoração do governo Lula, que classificou o acordo como uma “vitória do diálogo, da democracia e da cooperação dos povos” e do PT que afirmou que é uma “renovação da esperança no multilateralismo”, vem juntinho com a comemoração do agronegócio, que foi o maior beneficiado. O senado, na figura de Teresa Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura de Bolsonaro, Nelsinho Trad (PSD -MS), da bancada ruralista e Rogério Carvalho (PT-SE), líder do governo no senado, afirmaram que a prioridade é a aprovação do acordo comercial assinado em janeiro. O fortalecimento do agronegócio é, como já denunciamos no jornal Amigo do Povo, uma política desse governo, que além de aprovar o maior Plano Safra da história se empenhou com bastante afinco para a assinatura desse acordo.
As consequências para o povo brasileiro são muitas, afinal o fortalecimento do agronegócio é inerente ao aumento dos conflitos no campo, disputas de terras, da desapropriação de pequenos camponeses, a paralisação de demarcação de terras indígenas e quilombolas, da reforma agrária e a falta de perspectiva de postos de trabalho na cidade. E, além disso, o fortalecimento do agronegócio e da mineração é fundamentalmente o aprofundamento de um modelo predatório do ponto de vista ambiental. Ou seja, há uma desconexão severa entre discurso e prática, o governo que se arroga da defesa da pauta ambiental e social é o mesmo que coloca nossas florestas, águas, e povos em risco para garantir o lucro dos já poderosos marajás do agronegócio e da mineração. O governo que diz estar de mãos atadas para mudanças estruturais por conta de um congresso “reacionário” é o mesmo que da poder e dinheiro para esses parasitas.
O que mais assusta é o silêncio dos ditos “bons”. Os petistas abobalhados comemoram acriticamente o acordo, os grandes movimentos sociais (MST, Via Campesina, CUT, entre outros) soltam tímidas notas de repúdio. Esse acordo não deixa nada a desejar a ALCA! Há 26 anos atrás estávamos justamente rejeitando a ALCA! E, hoje, não há nenhuma movimentação para fazer o básico: convocar intensas mobilizações contra a implementação de tal acordo! Assim como os agricultores da União Europeia que protestaram contra o acordo lá, deviamos nos unir aqui também, afinal, nós trabalhadores do Mercosul ou da União Europeia seremos severamente prejudicados em prol do lucro dos poderosos. ■






