Publicado no Jornal O Amigo do Povo, nº16, Março/Abril/Maio de 2026.
Jiren D.

Em dezembro de 2025, a luta de classes no Brasil foi marcada por duas greves nacionais de grande importância: a greve dos petroleiros, iniciada no dia 15 de dezembro, e a decisão dos trabalhadores dos Correios de cruzar os braços a partir do dia 16, posteriormente adiada pelas direções sindicais. Essas mobilizações expressaram a insatisfação acumulada de duas categorias estratégicas da economia e da logística de um país dependente e de dimensões continentais. Ao ameaçarem a circulação de combustíveis, energia e mercadorias às vésperas do Natal e do Ano Novo, as greves demonstraram, ainda que de forma parcial, a enorme força social da classe trabalhadora quando atua coletivamente.
A greve dos petroleiros começou com forte adesão em diversas bases e, já nos primeiros dias, enfrentou repressão policial, judicialização e tentativas de intimidação por parte do Estado e da empresa. Nos Correios, apesar da clara disposição de luta expressa nas assembleias, o movimento foi contido desde o início pelas burocracias sindicais da FENTECT e da FINDECT, que adiaram a deflagração da greve atendendo a um pedido direto do governo Lula, apostando mais uma vez em mesas de “negociação” sem resultados concretos. Esse processo revelou um padrão já conhecido: enquanto os trabalhadores chegam ao limite da indignação, as direções sindicais majoritárias atuam para conter, fragmentar e desmobilizar a luta.
As greves explodiram após meses de enrolação, nos quais Petrobras, Correios e governo mantiveram propostas rebaixadas, negando a reposição integral das perdas salariais e aprofundando a precarização das condições de trabalho. Ao mesmo tempo, as direções ligadas à CUT — como a FUP no caso dos petroleiros — e ao PT alimentaram ilusões no governo, apostando na conciliação e não preparando seriamente as bases para um enfrentamento prolongado. Quando a greve se impôs pela pressão direta da base, essas mesmas direções atuaram como freio, revelando seu papel de sustentação da governabilidade burguesa e dos interesses patronais.
A ausência de uma massificação mais ampla e de uma maior nacionalização efetiva das greves, somada à falta de avanço na unificação entre os movimentos, foi um dos principais limites do processo. Isso ocorreu apesar das tentativas de setores da CSP-Conlutas como o MPR (Movimento por um Partido Revolucionário), que defenderam a construção de uma luta unificada. Petroleiros e trabalhadores dos Correios enfrentam um inimigo comum: um governo comprometido com o ajuste fiscal, com a lógica do lucro e com a precarização dos serviços públicos. A inexistência de um comando nacional unificado, com poder real às bases e ações coordenadas, facilitou o isolamento das lutas e abriu espaço para derrotas parciais.
Ainda assim, as greves deixaram lições fundamentais. Demonstraram que não há saída para os trabalhadores dentro das ilusões no governo Lula nem sob a tutela das burocracias sindicais. Evidenciaram também que a defesa das estatais não pode se limitar à oposição à privatização, devendo avançar para um programa que coloque a Petrobras e os Correios a serviço do povo trabalhador, sob controle direto dos trabalhadores. Apoiar a massificação das greves, impulsionar sua nacionalização, fortalecer a unidade classista rumo a uma greve geral e aprofundar o trabalho de base em setores estratégicos são tarefas centrais dos setores revolucionários. Nesse sentido, a construção de um bloco classista no interior da CSP-Conlutas — a única central que teve uma posição mais consequente de apoio às greves — aparece como um caminho necessário para o avanço da luta popular. ■






