Publicado no Jornal O Amigo do Povo, nº16, Março/Abril/Maio de 2026.
Érico.

A prefeitura de Águas Lindas de Goiás iniciou em julho de 2024 a construção do Polo Industrial Sol Nascente em Águas Lindas de Goiás, acompanhado de um aeroporto para vôos comerciais. A obra representa muito mais do que um empreendimento local; é a materialização da estratégica da expansão geopolítica chinesa no coração do Brasil. Anunciado como uma “porta de entrada” para dezenas de empresas de tecnologia e logística da China, com investimentos bilionários, o projeto mascara, sob o discurso do desenvolvimento, uma profunda reconfiguração das dependências econômicas e do controle sobre infraestruturas críticas, além da grande disparidade entre as infraestruturas planejadas e o cotidiano de dificuldades que a população enfrenta. Esta iniciativa não é um fato isolado, mas um capítulo calculado da Iniciativa do Cinturão e Rota, que transforma a América Latina de mero fornecedor de commodities em plataforma integrada às cadeias globais comandadas por Pequim.
O contexto revela uma ofensiva metódica. A China já controla setores energéticos, de infraestrutura pesada e digital no país, e agora avança sobre a logística e a indústria de ponta. O Polo Sol Nascente, ancorado em mecanismos como o ITEC – Canal Expresso Brasil-China, pretende ser um nó estratégico para consolidação desse domínio no Centro-Oeste. A “Quadra Chinesa” deverá abrigar dezenas de empresas, complementada por um aeroporto de cargas de R$ 500 milhões, criando um corredor logístico autônomo que servirá prioritariamente ao escoamento da produção asiática.
Por trás desta fachada de modernidade, opera-se um arranjo institucional questionável. O projeto é viabilizado pela CODEAL – Companhia de Desenvolvimento de Águas Lindas, uma empresa de economia mista controlada pela prefeitura, que utiliza um terreno público supervalorizado como capital e tem a anuência para atuar desde a desapropriação de terremos à operação do aeroporto quando ele finalizado. Essa estrutura, com governança centralizada no poder executivo local, atua como um atalho que minimiza o controle social e a transparência, convertendo patrimônio público em base operacional para interesses geopolíticos estrangeiros. A agilidade do capital privado é assim vestida com a legitimidade do poder público local.
As contradições gritantes entre o projeto faraônico e a realidade local expõem seu caráter excludente. Enquanto se planejam aeroportos de última geração e corredores de alta tecnologia para mercadorias, Águas Lindas permanece assolada pela ausência crônica de saneamento básico, esgoto a céu aberto e alagamentos. A promessa de empregos de qualidade se esvai diante do histórico de precarização laboral em obras chinesas no país, e a especulação imobiliária afeta comunidades, aprofundando as desigualdades socioespaciais.
O Polo Sol Nascente simboliza um modelo perverso de desenvolvimento subordinado e dependente. Longe de representar uma cooperação soberana entre iguais, ele consolida uma relação neocolonial, onde o povo e o território brasileiro e sua infraestrutura são instrumentalizados para a acumulação de capital estrangeiro. O projeto reproduz assimetrias históricas: extrai recursos públicos e potencial logístico, oferecendo em troca externalidades sociais e ambientais, aprofundando a dependência e fortalece a superexploração, dessa vez chamada de parceria estratégica. ■






