As esquerdas da América Latina iniciaram 2026 escancarando o esgotamento histórico das estratégias reformistas diante da reconfiguração agressiva do imperialismo estadunidense. O caso venezuelano não representa uma exceção trágica, mas a forma mais acabada de uma derrota administrada a longo prazo, onde um governo que dispunha de aparato militar significativo — 123 mil militares ativos, navios, tanques e caças, além de milícias populares organizadas com cerca de 200 mil membros — e de uma base social mobilizável optou conscientemente pela inércia militar e pela capitulação politica negociada.
A retomada das relações diplomáticas entre Caracas e Washington, imediatamente acompanhada da entrega de dezenas de milhões de barris de petróleo, da presença de delegações norte-americanas em território venezuelano e de uma reforma legislativa apressada para adequar o ordenamento jurídico às demandas neoliberais, materializa uma subordinação total — uma subordinação não observada sequer em contextos de extrema assimetria militar, como a resistência palestina diante da máquina de guerra israelense ou a precária guerrilha afegã que derrotou a besta imperialista chamada Estados Unidos. Na Venezuela, não se tratou de uma derrota militar, mas do último ato de uma derrota política que vem se arrastando.
Dia 17 de janeiro os países do Mercosul assinaram com a União Europeia um acordo comercial que vinha sendo costurado há 26 anos. Na prática consiste em uma drástica redução de tarifas de exportação, reduzindo-as em mais de 90%, dos produtos agrícolas/minerais do Mercosul para a União Europeia, o que tende a gerar um desabastecimento no países do Mercosul e o encarecimento desses produtos no mercado interno, e de produtos industrializados da União Europeia para os países do Mercosul, o que tende a quebrar a indústria nacional devido à dificuldade de competir com os produtos importados.
Os livros de Geografia há muitos anos justificam o “subdesenvolvimento” do Brasil baseando justamente nessa “balança comercial desfavorável”. O aprofundamento do modelo do capitalismo dependente, reforçando o caráter agroexportador do Brasil em meio a um processo que tende ainda mais a reprimarização de nossa economia, é consequência inerente a esse acordo comercial.
A comemoração do governo Lula, que classificou o acordo como uma “vitória do diálogo, da democracia e da cooperação dos povos” e do PT que afirmou que é uma “renovação da esperança no multilateralismo”, vem juntinho com a comemoração do agronegócio, que foi o maior beneficiado. O senado, na figura de Teresa Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura de Bolsonaro, Nelsinho Trad (PSD -MS), da bancada ruralista e Rogério Carvalho (PT-SE), líder do governo no senado, afirmaram que a prioridade é a aprovação do acordo comercial assinado em janeiro. O fortalecimento do agronegócio é, como já denunciamos no jornal Amigo do Povo, uma política desse governo, que além de aprovar o maior Plano Safra da história se empenhou com bastante afinco para a assinatura desse acordo.
Em 1975, foi lançado o filme Salò, do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini. O filme é altamente controverso até hoje por sua violência gráfica e retrata como 4 homens ricos e poderosos raptam 18 jovens para humilhá-los, explorá-los e torturá-los de diversas formas numa mansão.
Na sexta-feira, 30 de janeiro, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos publicou mais de 3 milhões de documentos, 2.000 vídeos e 180.000 imagens associadas ao denominado “Caso Epstein”.
Tanto o filme de Pasolini como os detalhes publicados no último caso partilham um denominador comum: o protagonismo de criminosos absurdamente ricos que levam a desumanização à níveis perigosamente aberrantes.
O Caso Epstein apresenta-se como um novo lembrete do poder da burguesia e dos seus representantes políticos e legais, e da sua podridão moral.
Nem EUA/OTAN nem China/Rússia, operários e camponeses contra o capital-imperialismo!
A prefeitura de Águas Lindas de Goiás iniciou em julho de 2024 a construção do Polo Industrial Sol Nascente em Águas Lindas de Goiás, acompanhado de um aeroporto para vôos comerciais. A obra representa muito mais do que um empreendimento local; é a materialização da estratégica da expansão geopolítica chinesa no coração do Brasil. Anunciado como uma “porta de entrada” para dezenas de empresas de tecnologia e logística da China, com investimentos bilionários, o projeto mascara, sob o discurso do desenvolvimento, uma profunda reconfiguração das dependências econômicas e do controle sobre infraestruturas críticas, além da grande disparidade entre as infraestruturas planejadas e o cotidiano de dificuldades que a população enfrenta. Esta iniciativa não é um fato isolado, mas um capítulo calculado da Iniciativa do Cinturão e Rota, que transforma a América Latina de mero fornecedor de commodities em plataforma integrada às cadeias globais comandadas por Pequim.
O contexto revela uma ofensiva metódica. A China já controla setores energéticos, de infraestrutura pesada e digital no país, e agora avança sobre a logística e a indústria de ponta. O Polo Sol Nascente, ancorado em mecanismos como o ITEC – Canal Expresso Brasil-China, pretende ser um nó estratégico para consolidação desse domínio no Centro-Oeste. A “Quadra Chinesa” deverá abrigar dezenas de empresas, complementada por um aeroporto de cargas de R$ 500 milhões, criando um corredor logístico autônomo que servirá prioritariamente ao escoamento da produção asiática.
O Coletivo de Apoio aos Movimentos Populares – Guilherme Irish nasce da necessidade concreta de organização popular combativa em uma sociedade marcada pela desigualdade, pela exploração do trabalho e pela marginalização da maioria do povo. Em Goiânia, como em todo o país, a população pobre das periferias, das ocupações urbanas, a população em situação de rua e os catadores de materiais recicláveis são os que mais trabalham e produzem riqueza, mas permanecem excluídos das decisões e dos benefícios sociais. É diante dessa realidade que o coletivo se constrói, com o objetivo de fortalecer a luta direta e a autonomia dos movimentos populares, ao lado daqueles que vivem diariamente os efeitos mais brutais da ordem burguesa.
Nossa atuação parte da compreensão de que nada virá de cima. Nenhum governo, partido ou instituição resolverá os problemas estruturais enfrentados pelo povo trabalhador. Toda conquista real nasce da união, da organização de base e da luta coletiva. Por isso, o Coletivo Guilherme Irish atua com apoio mútuo, formação política, ação direta e solidariedade de classe, contribuindo para que os próprios movimentos sejam protagonistas de suas decisões, estratégias e rumos.
Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), conhecido como Tiradentes, lutou pela emancipação da capitania de Minas Gerais, sendo parte fundamental do ciclo histórico de lutas emancipacionistas na América Portuguesa do final do século XVIII. Tido como um inconfidente, ou seja, um traidor, Tiradentes foi “resgatado” pelo republicanismo ao final do século XIX e elevado a líder nacional durante a república brasileira, inclusive pela Ditadura Militar, evidenciando a disputa ideológica e memorial sobre sua figura legendária.
O lider circulava entre diversos setores da sociedade por meio de sua primeira profissão, dentista (daí a alcunha “Tiradentes”). Ao contrário do que popularmente se acredita, não era um sujeito pobre, sendo sua família proprietária de terras com boas condições financeiras. De dentista, tornou-se tropeiro, realizando viagens pelo Brasil, o que aguçou seu olhar para o país. Foi aceito no serviço militar em 1775, durante o qual, atuou na mineração.
Influenciado pelo republicanismo norte-americano (até então revolucionário, ainda que limitado), sua perspectiva para o desenvolvimento regional e independência é clara, como nos evidencia Kenneth Maxwell (1973): “elogiava a beleza de Minas e apontava seus recursos naturais como os melhores do mundo […]. Livre e republicano, como a América inglesa, o Brasil poderia ser ainda maior, dizia ele, por ser melhor dotado pela natureza. Criando-se indústrias […] não haveria necessidade de importar mercadorias estrangeiras”. Segundo Tiradentes, a razão da pobreza do país, apesar de todas as suas riquezas era “só porque a Europa, como uma esponja, lhe estivesse chupando toda a substancia, e os Exmos. Generaes de tres em tres annos traziam uma quadrilha, a que chamavam creados, que depois de comerem a honra, a fazenda, e os officios, que deviam ser dos habitantes, se iam rindo delles para Portugal”.
Os catadores de rua de Goiânia – os carrinheiros – vivem uma dura realidade de trabalho pesado e invisibilizado. Diariamente enfrentam sol forte, chuva, longas jornadas, carrinhos excessivamente pesados, riscos constantes de acidentes e o preconceito social. São trabalhadores fundamentais para a cidade e para a preservação ambiental, mas tratados como descartáveis pela ordem capitalista.
Apesar do esforço extremo, a maioria dos catadores de rua recebe muito pouco pelo material coletado. Isso ocorre porque trabalham subordinados aos atravessadores, os chamados “deposeiros”, que lucram em cima do suor desses trabalhadores. Esses atravessadores impõem preços aviltantes, descontos abusivos pelo uso de carrinhos e balanças manipuladas, mantendo os catadores em uma situação permanente de exploração e dependência.
Em vários casos já denunciados pela imprensa, inclusive pela televisão, há depósitos funcionando em condições análogas à escravidão. Catadores são impedidos de receber em dinheiro, sendo obrigados a aceitar pagamento em drogas, vales ou mercadorias, aprofundando a vulnerabilidade social e a violência cotidiana. Trata-se de uma relação brutal de exploração, sustentada pela ausência de direitos, fiscalização conivente e abandono do poder público.
“Eu sou brasileiro. Eu sou o que a prática revolucionária realizada no contexto brasileiro fez de mim. Nós seguimos nosso próprio caminho e se chegamos à pontos de vista iguais aos de Mao, Ho Chi Minh, Fidel Castro, Guevara, etc., não foi pelo nosso desejo.” (Carlos Marighella)
Nos últimos anos presenciamos diversos rachas nas organizações de esquerda, reformistas e revolucionárias. Esse é mais um sintoma da crise atual da classe trabalhadora. É um fato que as organizações combativas e anti-governistas apresentam limitações para responder (na teoria e na prática) à situação atual, levando à rachas e conflitos internos. O projeto petista também tem dificuldade em responder às suas próprias contradições. Por isso a crise é generalizada e a busca por respostas (aonde ir e o que fazer) é uma constante.
Uma primeira característica do que chamamos doutrinarismo é a ideia de buscar uma fórmula teórico-ideológica que seja pura e que esteja perdida em algum momento, lugar ou pessoa do passado e que nós devemos descobrir. É como se os problemas fundamentais da revolução brasileira já tenham sido resolvidos em outro tempo-espaço, basta a gente ter acesso a essa verdade, a esse modelo.
No geral, trotskistas, anarquistas e maoistas são os mais doutrinários. A subjetividade defensiva fruto de uma experiência histórica traumática no século XX, de posições traídas, reforça a vigilância e apego ao “caminho correto” desvirtuado. A cada nova ruptura, a promessa de “erradicar o revisionismo” e reconstruir o “verdadeiro” partido da revolução. E assim vão acumulando tantas correntes e sub-correntes, com base em interpretações distintas das “escrituras”, mas que, ao fim e ao cabo, são usadas para justificar as posições políticas concretas mais díspares (frente ao governo, à luta sindical, etc.).
A continuación publicamos la traducción al español de las resoluciones públicas de la plenaria nacional de nuestra joven organización. Esperamos así que las luchas y debates que libramos junto al pueblo trabajador brasileño lleguen cada vez a un mayor número de camaradas y organizaciones revolucionarias en todo el mundo. En un momento en que la profundización de la crisis imperialista amenaza a los pueblos del mundo, en particular a los de Latinoamérica, es más necesario que nunca estrechar los lazos, los intercambios y las redes de apoyo mutuo y acción directa basadas en el internacionalismo, el clasismo y el antiimperialismo. Más aún, es importante que la política antiimperialista no se base en sectarismos ideológicos, sino en criterios más concretos y estratégicos de la lucha de clases; también es necesario que nuestro internacionalismo no se confunda con un cosmopolitismo pequeñoburgués, sino que esté profundamente arraigado en nuestro pueblo y sus experiencias colectivas particulares. La traducción fue realizada por el compañero “Maradona”. ¡Buena lectura a todos y todas!
Revolucionar a nosotros para
revolucionar el Brasil
Plenaria Nacional del Grupo Libertação Popular (Grupo Liberación Popular) Brasil, agosto de 2025.
1 – Introducción
En mayo de 2025 el Grupo Liberación Popular (GLP) cumplió su primer año de existencia. Somos un joven agrupamiento socialista revolucionario, y, a pesar de ser fruto de otras experiencias pasadas, tuvimos que reorganizarnos casi desde cero, lo que generó desafíos colectivos a nivel de organización interna, de estructuración de frentes de actuación, de unidad de análisis, estratégica y programática. Hemos enfrentado de frente y con humildad esos desafíos. Faltan cuadros, falta estructura, urge profundizar en cuestiones importantes, teóricas y prácticas. Dimos pasos importantes, pero iniciales. Sin embargo, sería un camino más fácil y seguro, tanto como tonto e inútil, comenzar la caminata con todas las respuestas.
La Plenaria Nacional del GLP, realizada los días 23 y 24 de agosto de 2025, surgió en ese contexto y en esa necesidad. A lo largo de pre-plenarias locales, de la lectura y debate de las contribuciones, relectura de documentos y acumulados pasados, y durante los dos días de la Plenaria General evaluamos la realidad de la lucha de clases nacional e internacional, los desafíos actuales de las masas populares y de los revolucionarios brasileños, qué y hasta dónde podemos avanzar como organización, qué todavía necesitamos hacer o mejorar, qué errores (de análisis y de práctica) corregir. La Plenaria tuvo, por lo tanto, como objetivos: instruir, actualizar y profundizar diferentes directrices de nuestra Organización y Lucha.
La superación de la actual etapa embrionaria de organización, en cantidad y calidad, solo será alcanzada con un intenso trabajo político articulado con la acción militante, con un espíritu de superación del dogmatismo y oportunismo, abierto a las necesidades concretas y particulares de la revolución brasileña. Desde donde estamos hacia donde queremos llegar existirán muchas etapas históricas por cumplir. Exigirá firmeza y coherencia en nuestro proyecto político (socialista, revolucionario, clasista, antiimperialista, autogestionario) pero gran habilidad para efectuar las transformaciones internas y orgánicas exigidas en cada etapa de construcción, sin aferrarse a fórmulas listas y acabadas. Por eso bautizamos nuestra Plenaria con un lema parafraseado del MIR-Chileno: revolucionar a nosotros para revolucionar el Brasil.
Publicado emDebate, GLP, Internacional, Teoria e ideologia|Comentários fechados em Español | Resoluciones de la 1.ª Plenaria Nacional del Grupo Liberación Popular (GLP)
No dia 22 de fevereiro um coletivo de professores do Grupo Libertação Popular (GLP) passou em mais de 20 escolas da Ceilândia e Sol Nascente lançando a primeira edição do boletim Magistério Rebelde, um instrumento que pretende defender um novo paradigma de luta e organização na categoria de trabalhadores da educação, assim como colando cartazes contra o “golpe estatutário” arquitetado pela atual diretoria do SINPRO-DF (PT, PCdoB e PSOL). Nas escolas, os professores do povo passaram também na “salinha” dos terceirizados da limpeza conversando sobre a campanha contra as derrubadas de moradias populares e roubo de ambulantes pelo DF Legal, sendo muito bem recebidos, recebendo relatos e desabafos. A proposta é seguir fazendo trabalho de base em mais escolas até o dia da Assembleia Geral do Magistério dia 18 de março. Leia abaixo os textos do boletim Magistério Rebelde nº1:
Como se não bastasse o que fizeram na greve de 2025… Diretoria prepara golpe estatutário!
O primeiro semestre de 2025 foi marcado por uma greve histórica da categoria que expôs a crise profunda do modelo sindical representado pela atual diretoria do SINPRO, hegemônica há cerca de 30 anos pelo PT e PCdoB, que agora incorporou uma corrente do PSOL. O estopim foi a assembleia geral de 25 de junho, dia em que a diretoria aplicou seu golpe na categoria, utilizando métodos autocráticos para encerrar a greve, ignorando a decisão da base de continuar a luta. Esse episódio é a manifestação mais explícita das práticas pelegas da burocracia sindical, que vêm enfraquecendo a categoria e causando retrocessos em direitos há mais de uma década.
Durante o processo eleitoral, formou-se a Chapa 2 “Alternativa”, uma frente de grupos de oposição (da qual participa o Grupo Libertação Popular, junto com outros coletivos) com um programa focado em combater a burocratização (devolvendo poder às bases) e combater o peleguismo (rompendo conchavos com governos). A campanha da Chapa 2, embora tenha gerado entusiasmo nas escolas, não se converteu em votos suficientes, evidenciando o poder da máquina sindical e de suas “claques” (grupos de apoio acríticos) para se manter no poder.
Alertamos os professores sobre a continuidade desse projeto autoritário de poder. A atual diretoria, fortalecida pela vitória eleitoral e usando a estrutura do sindicato, pretende agora alterar o estatuto da entidade, aprofundando os mecanismos de controle e perpetuando a burocracia no comando de nossa entidade, aumentando ainda mais a distância entre a direção e a base da categoria. Como não conseguiram fazer isso no 13º Congresso dos Trabalhadores em Educação (CTE) por falta de quórum – tamanha a sua vontade de aplicar um golpe às escondidas, pelas costas da categoria – precisarão fazê-lo agora em alguma assembleia desse ano, aonde tentarão manipular novamente os resultados. É preciso ficarmos de olhos abertos para impedir esse golpe!
Publicado emCampanha, Distrito Federal, GLP, Sindical|Comentários fechados em DF | Professores do povo lançam o boletim Magistério Rebelde e denunciam golpe estatutário no sindicato
“A sociedade, no grande sentido da palavra, o povo, a vil multidão, a massa dos trabalhadores, não só dá a força e a vida, mas também dá os elementos de todos os pensamentos modernos, e um pensamento que não sai do seu seio e que não é a expressão fiel dos seus instintos populares, é um pensamento que já nasceu morto."