Publicado no Jornal O Amigo do Povo, nº17, Junho/Julho/Agosto de 2026.
J.C. Ramos

Atualmente no Brasil, a ascensão dos influenciadores e a centralidade das redes sociais contribuíram para uma crescente confusão entre os caminhos para a influência de massas e o alcance virtual. Seguidores, visualizações e curtidas são frequentemente tratados como indicadores de força política, enquanto a capacidade de mobilização social é relegada a segundo plano. A esperança de uma esquerda em crise é deslocada para a relevância midiática e para a capacidade retórica. Essa distorção articula-se com estratégias que subordinam a ação política à chamada disputa pela hegemonia político-cultural, conceito amplo o suficiente para justificar quase qualquer prática, mas frequentemente incapaz de apontar qual o caminho concreto para ruptura.
Em 2026, cerca de R$ 4 bilhões foram destinados ao financiamento público das campanhas eleitorais. Se a monetização das redes transforma interesses militantes em interesses empreendedores, a promessa de um cargo parlamentar converte-se em oportunismo para garantir carreira. A própria estrutura eleitoral funciona como mecanismo de integração de indivíduos e organizações à democracia representativa, deslocando energias militantes para a disputa de cargos, mandatos e recursos institucionais. Com eleições a cada dois anos, a tática tende a transformar-se em estratégia permanente.
Por isso, vale perguntar: o que possui maior relevância estratégica? Controlar grandes canais digitais, eleger dezenas de parlamentares ou exercer influência decisiva sobre uma categoria capaz de interromper setores fundamentais da economia, como os caminhoneiros, por exemplo? A resposta, aparentemente óbvia, depende da concepção estratégica adotada. Uma estratégia midiática valoriza a audiência; uma estratégia institucional privilegia mandatos; já a estratégia da hegemonia político-cultural tende a incorporar tudo. O problema é que, ao tentar abarcar tudo, frequentemente deixa de priorizar aquilo que seria essencial para a construção de uma ruptura revolucionária.
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