
Comunicado nº8 do Grupo Libertação Popular – GLP, Brasil, junho de 2026.
Contato: glp.nacional@inventati.org
Em setembro de 2023 o desabafo do balconista de farmácia, Rick Azevedo, viralizou nas redes sociais, encontrando eco em milhões de brasileiros submetidos a superexploração do trabalho. Desde o início, quando o Movimento VAT (Vida Além do Trabalho) saiu às ruas pela primeira vez, nós já alertávamos (ver comunicado n°2 do GLP) sobre dois graves entraves para o movimento se massificar e se radicalizar: a cooptação eleitoral e a lógica de redes sociais.
Foi exatamente esse o caminho trilhado. Rick se elegeu deputado em 2024, se tornou influencer e “dono” do VAT, transformando-o em comitê eleitoral particular, expulsando todos os críticos e descontentes. Por outro lado, ao passo que a luta foi esfriando, se restringindo às agitações isoladas de juventudes partidárias, estava em tramitação na Câmara duas PECs (Proposta de Emenda à Constituição) para a redução da jornada de trabalho, a PEC 221/24 de autoria de Reginaldo Lopes (PT) e a PEC 8/2025 de Erika Hilton (PSOL).
Porém, no dia 27 de maio o texto que foi aprovado pela Câmara e seguiu para o Senado foi o “substitutivo” para as PECs, apresentado pelo deputado direitista Leo Prates (Republicanos-BA). O substitutivo, como o próprio nome diz, apresentou mudanças importantes às propostas originais. Ao invés de reduzir a jornada semanal de 44h para 36h, a redução seria para 40h, ao invés da escala ser reduzida para 4×3, seria para 5×2, dentre outros recuos, colocados sob o balcão de negócios da burguesia, aceitos pela direita e pela esquerda, dentro de uma política de conciliação, de equilibrismo, não entre as classes, mas entre o uso eleitoral da pauta e a manutenção dos interesses burgueses.
De fato, independente do “tamanho” da redução da jornada, se o fim da 6×1 saísse do papel nas condições atuais já seria um milagre. Nós também estamos na luta e queremos essa redução! Mas será que deveríamos ignorar a realidade estampada na nossa cara, apenas porque alguns políticos falaram palavras bonitas, fizeram promessas e já estão “cantando vitória” em pleno ano eleitoral?! Será que é tão fácil assim vencer? Como militantes populares comprometidos com a luta por uma vida digna e pela revolução popular, não podemos compactuar com essa política de ilusões e mentiras.
1 – Sem organização e luta, a classe trabalhadora se torna refém
Tirando uma ou outra capital, e mesmo na iminência da votação na Câmara, os últimos protestos pelo fim da 6×1 foram esvaziados e simbólicos. Na medida em que as “grandes estruturas” da burocracia sindical e partidária (CUT, CTB, UNE, PT, PSOL, PCdoB) foram “adotando a pauta”, transformando os atos em palanque eleitoral, a adesão popular só foi diminuindo. De fato, criou-se um senso comum favorável à pauta, há a indignação dos trabalhadores contra a exploração, mas não há um movimento de massas organizado contra a escala 6×1. Não há grandes greves locais ou nacionais, muito menos que abarquem os setores mais explorados e precarizados.
Nesse cenário, sem o protagonismo real das massas, as disputas sobre a “jornada correta” que deveria substituir a 6×1, caem no vazio. Sem o protagonismo das massas nos tornamos reféns. E uma vitória frágil hoje, facilitada pelo apetite eleitoral de facções burguesas em disputa, pode facilmente ser revertida em derrota amanhã.
Assim, mal a PEC 221/24 foi aprovada na Câmara e seguiu para o Senado, mil manobras dos setores reacionários já buscam inviabilizar ou alterar ainda mais a proposta. Isso nos demonstra uma coisa óbvia: mesmo se o fim da 6×1 for aprovado, a pressão burguesa não vai parar. Por isso é bem razoável a desconfiança sobre a viabilidade política à longo prazo do fim da 6×1, ou mesmo sobre a aprovação de tantas mudanças no projeto e outros tantos retrocessos no mercado de trabalho que neutralizem na prática a redução da jornada.
A luta de classes é como um “cabo de guerra”. As conquistas ou retrocessos são frutos dessa correlação de forças. Os direitos não caem do céu. Nos últimos anos essa correlação está muito desfavorável para a classe trabalhadora. Temos sofrido uma avalanche de ataques aos direitos do povo, o mercado de trabalho está em frangalhos, a maior parte da classe jogada na informalidade sequer seria beneficiada pelo fim da 6×1, e uma grande parcela submetida a CLT está estrategicamente desorganizada pra luta (com ou sem sindicato). Um cenário perfeito para charlatões e oportunistas venderem soluções mágicas e mentirosas.
2 – Estratégia da ação direta X estratégia eleitoreira
Muitos líderes históricos da classe trabalhadora, refletindo sobre o papel das greves e lutas reivindicativas em geral, afirmaram que o melhor saldo que se pode ter delas é o avanço da organização e da consciência dos trabalhadores num sentido revolucionário. Afinal de contas os direitos conquistados dentro do capitalismo são rapidamente corroídos, a exemplo do aumento salarial neutralizado pela inflação. Já a organização e a consciência de classe são ganhos duradouros e bases indispensáveis de qualquer estratégia de transformação social.
A direção hegemônica da luta contra a escala 6×1 vai na contramão desse ensinamento. A tática do lulismo para a “conquista de direitos” é baseada no abandono da ação direta e do protagonismo das massas, substituindo-os pelo protagonismo de políticos e governantes através de conchavos no interior do Estado burguês. Essa tática tem levado nas últimas décadas – em relação aos direitos – à grandes retrocessos combinados com “vitórias” frágeis ou ilusórias, e, principalmente, à retrocessos na organização proletária e consciência de classe jamais vistos em nossa história.
No caso da 6×1 todo o plano do lulismo é voltado para tirar proveito eleitoral da pauta. Através da hábil manipulação ilusionista apresentam a aprovação na Câmara como um exemplo de vitória sem necessidade de luta e organização de massas. A um só tempo exaltam os “heróis” a serem votados em outubro, legitimam a disputa da democracia burguesa, e ainda degradam e isolam o caminho da luta e da organização popular. A corrida maluca para a caça de votos em cima da pauta do fim da 6×1 revela o lado mais baixo e asqueroso da política burguesa “progressista”.
3 – Levar a indignação aos locais de trabalho e transformar em força proletária organizada
Sem a nossa classe organizada e com a faca nos dentes não há possibilidade de alcançarmos vitórias reais e duradouras. Da “negociação” entre as facções à esquerda e à direita da burguesia não podemos esperar nada. Nenhuma ilusão é justificável. Ao contrário, como tentamos demonstrar aqui, seguir e fortalecer o caminho dessas ilusões (como abobados fãs de políticos e influencers) significa não apenas colocar em risco a efetividade prática do fim da escala 6×1 como também de tantos outros direitos ameaçados. Um futuro de conquistas e libertação para a nossa classe só virá pela auto-organização e pela ação direta das massas.
Por isso nós do Grupo Libertação Popular (GLP) seguimos apoiando e lutando ombro a ombro com os trabalhadores pelo fim da escala 6×1. Mas para a nossa estratégia classista e revolucionária, cada processo de luta, cada atividade de resistência, das maiores às mais pequenas, é um tijolo que fortalece a Organização independente e a Consciência de classe das massas populares. Elas contém o germe do Poder Popular, que é um poder coletivo e não individual, antagônico ao Poder Burguês, e que, portanto, não deve de forma alguma se tornar instrumento para a disputa de candidatos nas eleições burguesas. Fazer isso, como fazem hoje os lulistas e outros oportunistas, significa, em nome de uma vitória fácil e ilusória hoje, preparar as condições para uma derrota grave e duradoura amanhã.
A tarefa prioritária e, ao mesmo tempo, uma oportunidade histórica, da luta contra a escala 6×1 foi chegar nos setores mais explorados na iniciativa privada, nos comércios, setor agrícola, industrial, etc. Foi uma oportunidade (ainda que pouco aproveitada) para retomar a organização dos setores estratégicos do proletariado e a inserção revolucionária neles. Mas para aproveitar melhor esse potencial era preciso romper com a estratégia e os métodos rotineiros e hegemônicos na esquerda. Chegou-se mesmo a acreditar que os métodos e estéticas tipicamente universitárias e partidárias seriam capazes de atrair o trabalhador precarizado e massacrado pela escala 6×1 e pela ditadura patronal. E seguem insistindo nesse erro doutrinário.
Da nossa parte, participamos de protestos de rua, de agitação e propaganda, de reuniões, mas sem ilusões de curto prazo. Iniciamos o esboço e o debate coletivo de uma nova “estratégia de guerra de classes” (veja a edição n°12 do Amigo do Povo) voltada para planejar a inserção militante e a luta nos setores mais precarizados e oprimidos em seus locais de trabalho. Para nós isso ainda é uma tarefa pendente, difícil, mas incontornável, e não vai acabar com a aprovação ou não de projeto X ou Y. Sem a organização e o protagonismo dos sujeitos diretamente explorados na escala 6×1, não há movimento, propostas ou negociações plenamente legítimas. Sem organização coletiva independente, ou seja, sem poder próprio, nossa classe se torna refém de charlatões e oportunistas e dos conchavos entre partidos burgueses de direita e de esquerda.
Mãos à obra, camaradas! Nenhuma ilusão nas disputas burguesas no parlamento! A redobrar os esforços dos militantes do povo para a Organização e a Ação Direta pelo fim da escala 6×1, pelos direitos dos trabalhadores e pela libertação popular!
AVANTE A LUTA CONTRA A ESCALA 6X1!
IR AO POVO, IR AO COMBATE!






