Publicado no Jornal O Amigo do Povo, nº17, Junho/Julho/Agosto de 2026.
Esteban del Cerro

O dia 14 de junho sempre será lembrado como um dia de resistência para os povos indígenas Guarani e Kaiowá, mas também de memória e luto. Neste dia, em 2016, após a retomada do tekoha (“lugar onde se é”, terra ancestral Guarani e Kaiowá) de toro paso, no município de Caarapó (MS), dezenas de latifundiários da região, fortemente armados, se organizaram para atacar a retomada. Com 40 caminhonetes e máquinas agrícolas, após se articularem no interior da COAMO – uma gigantesca cooperativa do agronegócio –, atravessam diversas fazendas vizinhas em uma violenta ofensiva contra os indígenas, resultando no assassinato de Clodiode de Souza e seis feridos, hospitalizados com ferimentos em órgãos vitais. Alguns dos feridos, como Jesus (já falecido) e Norivaldo, carregam até hoje balas de fogo alojadas em seus corpos. Os indígenas também denunciaram a participação direta da Polícia Militar, além de delegados da Polícia Federal acusados pelo Ministério Público Federal de envolvimento com os fazendeiros. É preciso lembrar que, enquanto os assassinos permanecem soltos – principalmente os cinco fazendeiros acusados –, o pai de Clodiode, Leonardo de Souza, ficou preso por 5 anos acusado de ser liderança, de ter atacado e torturado policiais, e de ter sido responsável pela queima de máquinas agrícolas. Foi criminalizado pela luta coletiva de todo um povo.
O massacre, entretanto, também demarca uma vitória Guarani e Kaiowá: eles conseguem se manter no território através da luta, e decidem rebatizar o tekoha de Kunumi Poty Verá, nome indígena de batismo de Clodiode. Além disso, em resposta ao massacre, os indígenas avançaram em mais três retomadas na mesma região. As áreas reivindicadas fazem parte da Terra Indígena (TI) Dourados Amambaipegua I, de 55.600 hectares. A TI foi identificada em 2016 pela FUNAI e ainda não demarcada, nas proximidades da Reserva Indígena de Caarapó, a aldeia Tey’i Kue, com menos de 3.500 hectares. No total, são 9 retomadas no entorno da Reserva, demonstrando a força do levante indígena por terra e território, apesar de frequentes ataques químicos com agrotóxicos, violência policial e latifundiária, jagunços e pressão por capitulação.
Neste ano, para relembrar o Massacre de Caarapó e a insurreição que o acompanha, os Guarani e Kaiowá organizaram sua grande assembleia, a Aty Guasu, para ocorrer na retomada de Kunumi Poty Verá, em memória de Clodiode e todos os mártires da luta pela terra. Recentemente, em Amambai, novas retomadas nasceram, se somando aos heroicos avanços contra o latifúndio que culminaram na recuperação do tekoha Tapykora Korá, brutalmente reprimido pela Polícia Militar. Apesar das prisões e dos abusos sexuais sofridos por companheiras indígenas de policiais, a retomada segue impassível. Relembrar aqueles que morreram pelo território é manter a luta viva. Como afirmam os Guarani e Kaiowá: Clodiode tombou, muitos se levantarão! ■
Clodiode vive!
14 de junho: nem esquecer, nem perdoar!
Contra os crimes do latifúndio: justiça popular!






