Publicado no Jornal O Amigo do Povo, nº17, Junho/Julho/Agosto de 2026.
J.C. Ramos

Atualmente no Brasil, a ascensão dos influenciadores e a centralidade das redes sociais contribuíram para uma crescente confusão entre os caminhos para a influência de massas e o alcance virtual. Seguidores, visualizações e curtidas são frequentemente tratados como indicadores de força política, enquanto a capacidade de mobilização social é relegada a segundo plano. A esperança de uma esquerda em crise é deslocada para a relevância midiática e para a capacidade retórica. Essa distorção articula-se com estratégias que subordinam a ação política à chamada disputa pela hegemonia político-cultural, conceito amplo o suficiente para justificar quase qualquer prática, mas frequentemente incapaz de apontar qual o caminho concreto para ruptura.
Em 2026, cerca de R$ 4 bilhões foram destinados ao financiamento público das campanhas eleitorais. Se a monetização das redes transforma interesses militantes em interesses empreendedores, a promessa de um cargo parlamentar converte-se em oportunismo para garantir carreira. A própria estrutura eleitoral funciona como mecanismo de integração de indivíduos e organizações à democracia representativa, deslocando energias militantes para a disputa de cargos, mandatos e recursos institucionais. Com eleições a cada dois anos, a tática tende a transformar-se em estratégia permanente.
Por isso, vale perguntar: o que possui maior relevância estratégica? Controlar grandes canais digitais, eleger dezenas de parlamentares ou exercer influência decisiva sobre uma categoria capaz de interromper setores fundamentais da economia, como os caminhoneiros, por exemplo? A resposta, aparentemente óbvia, depende da concepção estratégica adotada. Uma estratégia midiática valoriza a audiência; uma estratégia institucional privilegia mandatos; já a estratégia da hegemonia político-cultural tende a incorporar tudo. O problema é que, ao tentar abarcar tudo, frequentemente deixa de priorizar aquilo que seria essencial para a construção de uma ruptura revolucionária.
No Brasil, interpretações reformistas da obra de Gramsci ganharam ampla influência a partir do artigo A Democracia como Valor Universal (1979), de Carlos Nelson Coutinho (ex PCB, PT e PSOL). Inspirada pelo eurocomunismo, essa leitura deslocava o centro da ação política da ruptura revolucionária para a disputa da hegemonia na sociedade civil e nas instituições estatais. Conceitos como hegemonia e guerra de posição passaram a fundamentar uma estratégia de democratização progressiva do Estado.
O problema é que a disputa pela hegemonia frequentemente converte-se em integração à ordem existente. Ao substituir a construção de organismos próprios da classe pela ocupação gradual das instituições, o horizonte da ruptura é substituído pelo da gestão. Nesse aspecto, a crítica de Malcolm X ao integracionismo oferece uma reflexão que ultrapassa a questão racial: o integracionismo não elimina estruturas de dominação, apenas altera a composição social daqueles que as administram. O sindicalista transforma-se em burocrata sindical, o professor militante em gestor escolar, a mulher trans em agente policial, o negro em promotor e os jovens e promissores parlamentares em instrumentos de gestão da própria ordem que pretendiam transformar.
Por fim, é natural que mesmo organizações honestamente revolucionárias tenham, internamente, a reprodução das contradições ideológicas do período histórico em que atuam. Se a militância revolucionária encontra-se amplamente confinada aos espaços acadêmicos e às camadas médias urbanas, não surpreende que ilusões democráticas, eleitoralistas e parlamentaristas reapareçam periodicamente entre seus membros. Isso ocorre porque o desenvolvimento é condicionado pelos fatores limitantes. Da mesma forma, a consciência revolucionária desenvolve-se sob condições concretas. Quando a inserção proletária, territorial e produtiva é reduzida, determinadas limitações ideológicas tendem a emergir como expressão dessas próprias condições objetivas. Tais contradições não devem ser ignoradas, mas tampouco devem ser transformadas em motivo de crise.
Contudo, reconhecer a origem material dessas vacilações não significa normalizá-las politicamente. A experiência histórica demonstra que promessas parlamentares frequentemente terminam subordinadas à lógica das instituições existentes, produzindo adaptações, recuos e, por vezes, rupturas com os objetivos originalmente proclamados. Por isso, embora a verbalização (a nível interno) dessas contradições não deva ser transformada em crise organizativa, tampouco se deve liberalizar tais posições para além de sua expressão no âmbito da democracia interna das organizações revolucionárias. Quanto maior a responsabilidade política de um quadro dirigente, maior deve ser sua responsabilidade perante a linha coletiva, preservando a unidade estratégica da organização e evitando projetar hesitações individuais sobre o conjunto do movimento. Nesse sentido, deve haver uma diferenciação metodológica entre o tratamento das contradições expressas por militantes de base, lideranças informais e dirigentes. A estes dois últimos deve ser dado tratamento diferenciado pois cumprem não apenas o papel de referência e direção, mas também o de formadores das futuras lideranças que emergirão da base. ■






