Publicado no Jornal O Amigo do Povo, nº17, Junho/Julho/Agosto de 2026.
Maradona



Entre os meses de fevereiro e maio, em Goiânia e no Distrito Federal, o Grupo Libertação Popular realizou seu 2º Ciclo de Formação Básica do Militante do Povo “Lutas e revoltas do povo brasileiro: nossa tradição popular, insurgente e libertadora”, com o intuito de compreender melhor a história do povo brasileiro e sua experiência histórica coletiva, tomando lições para a organização e luta popular no presente. Como, nestas notas, não caberão todos os nomes de autores e poetas lidos, recomendamos que o leitor interessado acesse nosso caderno de formação. As lições tomadas foram:
1) O Brasil possui longa tradição de formação de territórios autônomos, como os quilombos e aldeias indígenas, dos quais devemos tirar lições históricas de autodefesa armada, agricultura familiar e organização comunitária. Podemos aprender com os Tamoios e os povos que à eles se juntaram, no século XVI, através do confederalismo;
2) A quilombagem e o confederalismo indígena tiveram, por necessidade histórica, de utilizarem métodos guerrilheiros de luta, por causa da assimetria de poder entre estes e o inimigo colonial. Essa necessidade se manteve por toda a história do país, passando pela Cabanagem, no século XIX, cuja guerrilha se desenvolveu no curso dos rios amazônicos até, mais de um século depois, a guerrilha do Araguaia, em 1972;
3) O Tenentismo, que marchou aproximadamente 25 mil km Brasil afora, utilizou a tática de guerrilha de movimento rural, pegando o governo de surpresa, que não conseguiu acabar com a Coluna Miguel Costa-Prestes. Mas a recusa dos militares em aliarem-se aos operários urbanos e à outros grupos de contestação deixou claro seus limites, que a partir desse momento estava fadado a ser um movimento bastante limitado politicamente. Mais de uma década depois, em 1935, com Luís Carlos Prestes já como membro do Partido Comunista do Brasil (PCB), o erro de precipitar o Levante de 1935 sem mobilização popular resultou no insucesso do levante. A análise equivocada de que o Brasil seria um país “semi-feudal” levou à ideia de que a burguesia nacional estaria interessada em “desenvolver o país” contra os elementos mais atrasados da elite nacional. Esse erro de análise culminou na falta de preparação do PCB para o golpe de 1964 e sua posterior renúncia à luta armada;
4) A organização popular em clubes e reuniões clandestinas, como no caso da Conjuração Mineira, da Revolta dos Malês e da Revolta da Chibata, além dos grupos anarquistas que se reuniam no período da Primeira República (a República Velha), mostraram-se importantes para a organização e preparo do levante, mas apontam também para a importância de se atentar aos caguetas, que sabotaram, só para título de exemplo, Tiradentes, os Malês e a Insurreição Anarquista de 1918, no Rio de Janeiro;
5) Os períodos em que a classe trabalhadora mais ganharam vivacidade e força coletiva foram com organizações combativas e independentes em relação ao Estado: Confederação Operária Brasileira; Ligas Camponesas; greve operária de Contagem em 1968; entre outras. A questão fundamental é articular as diversas frentes e organizações (políticas e de massas), analisando sua capilaridade, o ânimo das massas, a quantidade de tensionamento necessário para escalar determinada situação, os fluxos e refluxos da luta popular, etc.;
6) Desde as Jornadas de Junho de 2013, a esquerda liberal tenta se afastar cada vez mais da ação direta de classe, reforçando o cretinismo parlamentar como única via de luta. Ou seja, canalizaram todas as forças para o debate institucional e sabotaram a organização popular, como é o caso da CUT, que atua para minar e controlar as categorias profissionais. Após o 8/1 bolsonarista, isso se acentuou. Mas a grande questão é que o proletariado marginal continua desorganizado (ou organizado em pequenos grupos autônomos, como é o caso dos entregadores de moto) e, como categoria popular estratégica, é onde devemos atuar com maior firmeza e dedicação, pois é também a vanguarda da revolução brasileira.■






