Publicado no Jornal O Amigo do Povo, nº17, Junho/Julho/Agosto de 2026.

- Força Ação Revolucionária (FAR)
Organização revolucionária do Chile. Defensora da linha marxista insurrecional e reconhecida por suas importantes análises e orientações frente a conjuntura latino-americana. Dando continuidade ao importante diálogo entre nossas organizações, apresentamos essa entrevista aos brasileiros, aonde os companheiros da FAR apresentam a sua organização militante.
- Entrevistador:
Coordenação Geral do Grupo Libertação Popular (GLP)
- Tradutor:
Maradona
- Como e por que se fundou a organização FAR? Qual é o contexto?
FAR – No ano de 2019, o Chile viveu uma situação insurrecional que foi decisiva para o nascimento da FAR. Antes disso, já vínhamos com um processo organizativo, desde o ano de 2015, o qual havia transitado por um crescimento político com muitas limitações: por um lado, enfraquecidos em nosso funcionamento orgânico, mas, por outro, com uma inserção de massas importante no plano popular e estudantil.
A revolta de outubro de 2019 marcou um antes e um depois na nossa organização, porque foi o ponto de inflexão que nos levou a realizar um balanço crítico da nossa atividade política e, junto com isso, a estudar e compreender o fenômeno da revolta, seu caráter, dinâmica, contradições, bem como o papel desses processos insurrecionais no marco geral da luta de classes no Chile e na América Latina, derivando disso, como síntese política, a nossa linha do marxismo insurrecional e as definições principais da nossa organização, chanceladas no primeiro congresso no ano de 2022.
- Em alguns de seus documentos, defende-se o caráter proletário, socialista e continental da revolução chilena. Vocês poderiam nos explicar as concepções políticas da FAR?
FAR – O caráter da revolução é uma categoria de grande relevância porque é a pedra angular de onde nasce e se articula todo projeto político revolucionário, incluindo sua estratégia, programa e o tipo de instrumento político necessário para levá-la a cabo.
É por isso que se torna fundamental que o caráter da revolução nasça de uma análise histórica e dialética da realidade, e sob nenhuma circunstância de desejos, romantizações ou importações mecânicas de determinados posicionamentos teóricos e/ou políticos. Tudo isso nós sistematizamos em nossas análises e na caracterização do capitalismo chileno exposta em nosso projeto político.
Como conclusão disso, definimos o caráter da revolução chilena como proletária, socialista e continental — em relação ao sujeito, ao conteúdo e ao alcance da revolução —, porque reconhecemos o proletariado como o sujeito que há de assumir um papel dirigente na revolução, em aliança com outros setores oprimidos que provêm de formações sociais pré-capitalistas, como, no nosso caso, setores camponeses, pescadores artesanais e o povo-nação Mapuche, principalmente.
Da mesma forma, entendemos que existem todas as condições objetivas para que a luta revolucionária seja a luta não apenas pela conquista do poder político por parte dos trabalhadores, mas pela transformação estrutural da sociedade, despojando a burguesia da propriedade dos meios de produção, de sua posição de classe dominante e de sua própria existência como classe, socializando os meios de produção, de organização e de poder nas mãos dos trabalhadores.
Finalmente, entendemos que o desenvolvimento imperialista do capitalismo fortaleceu a unidade de classe da burguesia, a concentração do capital e os mecanismos de dominação dos Estados, cada vez mais articulados entre si. Especificamente na América Latina, esse fenômeno tem suas próprias particularidades, arraigadas na história do nosso continente, mas também em suas condições geopolíticas que determinam a forma de atuação do imperialismo sobre os nossos países.
É por isso que entendemos que uma revolução não tem possibilidades de ser vitoriosa se não se assegurar a viabilidade de um processo revolucionário continental. Ou seja, não tem a ver apenas com aspectos comuns históricos, culturais e sociais que nossos países compartilham, mas sim com uma defesa estratégica do processo revolucionário. Pois não se trata apenas de conquistar o poder por parte dos trabalhadores, mas de ser capaz de defender a revolução e implementar as transformações socialistas fundamentais para varrer qualquer resquício do poder burguês.
- Como tem se desenvolvido e guiado o trabalho da FAR com a classe trabalhadora chilena? Quais desafios e êxitos vocês encontraram neste trabalho?
FAR – Nossa inserção na classe trabalhadora continua sendo muito limitada pela realidade imposta pelo momento da luta de classes que transitamos e pela capacidade objetiva das nossas forças. No entanto, voltamo-nos a construir decididamente, apesar de todas as adversidades. Tal como dizem nossos companheiros do GLP, afirmamos que é fundamental ir ao povo para enraizar um processo de construção real, colocar os pés no seio de nossa classe e avançar do pequeno para o grande. É por isso que hoje nos encontramos inseridos em bairros populares, com um trabalho que, até esta data, centra-se principalmente na organização e no protagonismo político da juventude e das crianças do povo; em sindicatos, onde destacamos a experiência que tivemos com o sindicato de trabalhadores informais, que nasce a partir da necessidade de dar resposta ao processo de precarização e aumento contínuo de expulsão da força de trabalho dos processos produtivos, que a burguesia tem levado a cabo e que hoje mantém mais de 30% da classe trabalhadora chilena em condições de informalidade. Da mesma forma, desenvolvemos um processo de inserção no campo estudantil universitário, ainda muito incipiente, em uma disputa aberta contra o progressismo, o paternalismo e as práticas pequeno-burguesas que refletem uma decomposição profunda do campo estudantil, e no mundo secundarista onde se concentra a juventude da nossa classe.
Tudo isso sob o nosso método de construção que definimos como Pedagogia Revolucionária e uma prática política que coloca no centro a independência de classe e o exercício da democracia popular, a fim de outorgar protagonismo e responsabilidade coletiva aos sujeitos que compõem as organizações de massas. Cremos que, para romper com a alienação que o capital impõe sobre os trabalhadores, é fundamental que o povo assuma, com criatividade e compromisso, a apropriação coletiva de seus espaços de organização, onde através da experiência coletiva e de luta vai se desenvolvendo a consciência de classe.
Na prática, isso apresenta inúmeras dificuldades e muitos desafios, tanto por nossas próprias limitações quanto pelas condições subjetivas que nossa classe atravessa, como a fragmentação e a atomização organizativa, o senso comum dominante, a perda do aprendizado histórico das lutas das quais nosso povo foi protagonista, bem como pela resposta das forças políticas progressistas e reacionárias que atuam nos territórios para perpetuar a passividade e o imobilismo dos trabalhadores como classe.
Tudo isso nos tensiona a ser perseverantes, disciplinados e rigorosos no nosso fazer, mas, por sua vez, sumamente críticos do nosso trabalho, para corrigir tudo o que for necessário, valorizando a criatividade militante e a flexibilidade para nos adequarmos à realidade de cada espaço onde estamos inseridos.
- Como vocês veem o momento em que vivemos na América Latina diante das disputas imperialistas, especialmente as agressões ianques? Que papel têm exercido os governos e setores “progressistas”?
FAR – A situação na América Latina atravessa um processo complexo devido à crise capitalista que hoje se centra nos conflitos interimperialistas pelo controle de recursos e territórios estratégicos, enquanto coloca sobre a classe trabalhadora o custo de suas guerras. Isso, acompanhado por uma superexploração intensiva da força de trabalho e pelas deterioradas condições de vida da grande maioria do nosso continente, fez eclodir um processo de conflitos sociais, onde destacamos a experiência insurrecional que hoje vive a classe trabalhadora e o povo boliviano.
Nesse contexto, os governos progressistas deixaram às claras não apenas os limites objetivos que a democracia burguesa impõe para qualquer transformação em benefício do nosso povo, mas também a sua honesta vontade de governar em benefício do capital.
Cada vez com mais força, assenta-se o descrédito sobre essa estratégia de governabilidade burguesa, que busca desesperadamente recompor-se para continuar cumprindo seu papel de contenção e desmobilização do povo trabalhador.
5) No Chile, o político reacionário José Antonio Kast foi eleito presidente, consagrando o refluxo político desde a insurreição popular de 2019, mas cujos marcos iniciais foram os fracassos do processo e do governo progressista de Boric. Quais são os desafios dos revolucionários e do proletariado chileno frente a Kast e como deveriam enfrentar este momento?
FAR – Como organização, temos sido explícitos em rejeitar as práticas políticas que tentam forçar a mobilização sem base social, bem como os falsos radicalismos que, em vez de contribuir para o desenvolvimento político e organizativo da nossa classe, a afastam de uma alternativa revolucionária. Acreditamos que tudo isso faz parte dos desvios presentes em grande parte da chamada esquerda revolucionária latino-americana, que ou despreza a nossa classe, subvaloriza o seu papel, ou a instrumentaliza com fins eleitorais ou como simples gado para gerar “fatos políticos”.
Estamos conscientes de que o momento histórico vai gerando novas experiências de lutas de massas que precisam ser radicalizadas em forma e conteúdo, mas isso não pode acontecer se não formos capazes de ir construindo força social nos espaços onde o povo está presente e ir fortalecendo as capacidades políticas e organizativas do nosso povo.
É aí que se constroem as condições reais para as transformações reais que, quando são profundas e estruturais, são sempre de longo fôlego.
- Por último, que mensagem vocês gostariam de compartilhar com os leitores antes de terminar a entrevista?
FAR – Além de agradecer por este espaço, que é o resultado de um intercâmbio muito valioso e positivo mantido há algum tempo com os companheiros do GLP, acreditamos que hoje a mensagem que gostaríamos de compartilhar é que sabemos que os processos de mudança são longos e complexos, mas é próprio dos revolucionários saber transitá-los sem desesperos, imediatismos ou voluntarismos inócuos. Construir uma organização revolucionária inserida e enraizada no povo trabalhador, com disciplina, compromisso, dedicação e perseverança, é fundamental para dar passos firmes e assentar um caminho honesto por onde avancemos para despojar a burguesia de seu poder e forjar um futuro sem exploração do homem pelo homem, onde a dignidade humana e seu desenvolvimento integral sejam a base a partir da qual edificaremos uma nova sociedade. ■







