Publicado no Jornal O Amigo do Povo, nº17, Junho/Julho/Agosto de 2026.
Jiren D.

O brutal assassinato de um trabalhador em situação de rua no bairro Jardim América expôs uma realidade que há anos é denunciada por catadores de materiais recicláveis: a existência de um regime de terror, violência e superexploração que marca parte da cadeia da reciclagem em Goiânia.
Segundo relatos de catadores da região, muitos depósitos de reciclagem operam sob influência de facções criminosas que transformaram a miséria e a vulnerabilidade social em fonte de lucro. O que deveria ser apenas um ponto de comercialização de materiais recicláveis converte-se, na prática, em um sistema de controle sobre trabalhadores extremamente pobres, muitos deles moradores de rua e dependentes químicos.
As denúncias apontam para a existência de uma verdadeira “fatiação” dos depósitos conforme os territórios controlados por diferentes grupos criminosos. De acordo com os relatos, catadores que circulam por áreas consideradas pertencentes a outras facções correm risco de sofrer agressões e até mesmo de serem mortos. O medo faz parte da rotina daqueles que dependem da reciclagem para sobreviver.
Os trabalhadores denunciam ainda a existência de espancamentos, ameaças, torturas e outras formas de violência utilizadas para impor disciplina e submissão. Em diversos casos, segundo os relatos, o pagamento pelo material coletado ou pelos serviços realizados não ocorre em dinheiro, mas em drogas, aprofundando ainda mais a dependência e a exploração dos catadores. Aqueles que recusam esse sistema ou tentam romper com ele podem sofrer represálias, agressões ou expulsão das áreas onde trabalham.
Trata-se de uma forma moderna de escravidão, baseada não em correntes de ferro, mas na fome, na dependência química, na violência e na ausência de alternativas econômicas. Enquanto os catadores percorrem as ruas em jornadas exaustivas, arriscando a própria vida para recolher materiais recicláveis, intermediários e deposeiros acumulam lucros às custas de sua miséria.
Essa realidade demonstra como a reciclagem, em vez de servir ao desenvolvimento social e ambiental, pode ser apropriada por interesses criminosos e exploradores quando os trabalhadores permanecem desorganizados e sem proteção coletiva.
Diante desse cenário, torna-se urgente fortalecer a organização dos catadores em cooperativas autogestionárias, controladas pelos próprios trabalhadores. Somente rompendo a dependência dos depósitos exploradores será possível enfrentar a violência, derrotar a superexploração e construir uma alternativa baseada na solidariedade, na autogestão e na dignidade do trabalho. A luta dos catadores não é apenas por melhores condições de vida, mas contra um sistema que transforma pobreza em lucro e sofrimento em negócio. ■






